Introdução
Como otimista e gestor, reconheço o potencial transformador das novas tecnologias para alfândega e comércio internacional. No entanto, como um bom gestor, sei que para atingir metas realistas é necessário considerar todas as variáveis — tanto as otimistas quanto as pessimistas. Essas considerações são extraídas do documento produzido pela OMA intitulado "WCO Technology Conference and Exhibition 2024, Draft Programme, 12-14 November 2024, Rio de Janeiro, Brazil, Digital Borders: Customs Embrace Innovation with traditional and new partners." Neste contexto, faço breves considerações sobre os 10 painéis que ocorrerão no evento. À medida que nos aproximamos da Conferência de Tecnologia da Organização Mundial das Alfândegas (OMA) de 2024, é fundamental abordar de forma equilibrada os desafios e oportunidades que essas inovações trazem, garantindo que o futuro das alfândegas seja construído de forma responsável e sustentável.
1. Transformação digital nas alfândegas: reflexão sobre a dependência tecnológica
Uma das questões centrais que merece atenção é a transformação digital nas alfândegas, impulsionada por tecnologias como inteligência artificial e blockchain. Embora essas inovações prometam maior eficiência e transparência, é crucial refletir sobre a crescente dependência de sistemas tecnológicos e as implicações disso para a robustez das operações. Questionar a vulnerabilidade a falhas tecnológicas e avaliar a necessidade de manter supervisão humana em processos críticos são discussões inadiáveis.
2. Sustentabilidade no setor marítimo: o paradoxo das “Alfândegas Verdes”
A busca por práticas sustentáveis no comércio global, refletida no conceito de 'Alfândega Verde', evidencia um importante paradoxo: como conciliar o crescimento do comércio internacional com a necessidade de redução das emissões de carbono? A conferência oferece uma oportunidade valiosa para discutir como tecnologias inovadoras podem ser implementadas de maneiras que realmente contribuam para a sustentabilidade, sem comprometer o progresso econômico. A necessidade de políticas globais para apoiar essas práticas também é uma questão que precisa ser abordada.
3. Impacto da automação e da IoT no emprego: desafios e soluções
A introdução da automação e da Internet das Coisas (IoT) no transporte terrestre traz consigo promessas de eficiência, mas também o risco de desemprego em larga escala. É oportuno abordar as implicações sociais dessas inovações e discutir soluções para mitigar o impacto negativo na força de trabalho tradicional. A reciclagem profissional e a criação de novas oportunidades de emprego devem ser parte integrante dessas discussões, garantindo que a transição tecnológica seja inclusiva.
4. IA e blockchain no transporte aéreo: equilibrando segurança e privacidade
A integração de inteligência artificial e blockchain no transporte aéreo é outro tópico que requer análise cuidadosa, especialmente quando se trata de equilibrar segurança e privacidade. As questões éticas que surgem com o aumento da vigilância são complexas e exigem um debate aprofundado. Debater os limites da tecnologia em nome da segurança e garantir que os direitos individuais sejam respeitados são pontos que precisam ser abordados urgentemente.
5. Regulamentação do comércio eletrônico: adaptação a novos modelos de negócios
O comércio eletrônico está redefinindo o comércio global, trazendo consigo desafios regulatórios que ainda não foram totalmente abordados. Modelos de negócios em rápida evolução criam lacunas regulatórias que podem ser exploradas, a menos que a Alfândega se adapte rapidamente. Discutir como a Alfândega pode ser mais proativa na regulamentação, em vez de simplesmente reagir às mudanças, é essencial para garantir que novas tecnologias e práticas comerciais sejam regulamentadas de forma justa e eficaz.
6. Segurança Aduaneira: Preparação para Ameaças Digitais Emergentes
À medida que as tecnologias de segurança e cibersegurança avançam, há uma necessidade de reavaliar as estratégias de proteção de fronteiras em um mundo digital. É oportuno discutir não apenas a eficácia das tecnologias atuais, mas também como a Alfândega está se preparando para ameaças que ainda não foram previstas. A segurança aduaneira deve ser tratada como uma estratégia holística, integrando tecnologia, treinamento e respostas rápidas a incidentes.
7. Complexidade dos processos tecnológicos: a armadilha da “burocracia invisível”
A implementação de novas tecnologias nas alfândegas, visando simplificar processos, pode, paradoxalmente, introduzir uma “burocracia invisível”. É necessário abordar como garantir que a tecnologia realmente reduza a complexidade, em vez de substituí-la por uma nova camada de dificuldade. Discutir maneiras de evitar que sistemas automatizados criem novas barreiras é um tópico que merece atenção.
8. Ética e IA nas fronteiras: debate urgente necessário
O uso crescente de inteligência artificial em operações alfandegárias levanta questões éticas que ainda não foram totalmente exploradas. Privacidade, transparência e responsabilização são questões que precisam ser seriamente discutidas. Abordar essas questões é essencial para garantir que a adoção de IA nas alfândegas seja feita de maneira ética e responsável, considerando os impactos sociais e individuais.
9. Desumanização dos serviços aduaneiros: o papel dos chatbots e analise de dados
Embora a análise de dados e o uso de chatbots possam aumentar a eficiência nas operações alfandegárias, também há o risco de desumanização dos serviços. É importante discutir como essas tecnologias podem ser integradas sem comprometer o elemento humano essencial para um atendimento eficaz. Garantir que a tecnologia complemente, e não substitua, o contato humano é um desafio que deve ser enfrentado.
10. Visão equilibrada para o futuro das alfândegas na era digital
Por fim, vale considerar que o futuro das alfândegas não pode depender apenas da adoção de novas tecnologias. Uma abordagem equilibrada, que considere as implicações éticas e sociais das inovações, é essencial para construir práticas eficientes, justas e inclusivas. A Conferência de Tecnologia da OMA de 2024 deve servir como um fórum para questionar e avaliar esses impactos, garantindo que o progresso tecnológico seja acompanhado por uma reflexão crítica sobre seus efeitos no comércio global.
Conclusão
A Conferência de Tecnologia da OMA 2024 oferece uma plataforma única para abordar questões críticas que impactarão o futuro das alfândegas e do comércio internacional. Abordar essas questões com a profundidade necessária é essencial para garantir que as inovações tecnológicas sejam implementadas de maneira ética, sustentável e inclusiva, moldando um futuro no qual os costumes desempenhem um papel central no desenvolvimento global. O Quadro SAFE, com seus três principais atores (governo, setor privado e organizações internacionais), fornece a estrutura necessária para um sistema aduaneiro moderno, baseado em coleta eficiente, facilitação do comércio e segurança. Esse tripé essencial garante que o diálogo contínuo entre esses atores crie um costume que equilibre os interesses de segurança, econômicos e de sustentabilidade.

Despachante Aduaneiro, Graduado em Economia e Mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Cofundador da EBIMEX Comércio Exterior e Diretor do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo (SINDASP), Brasil. Atua como Assessor de Marketing e Comunicação Institucional na Associação Internacional de Despachantes Aduaneiros Profissionais (ASAPRA) e é membro da Câmara Brasileira de Produtos Farmacêuticos (CBFARMA) da CNC. Possui certificações em Inteligência Artificial pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e em Marketing e Comunicação pelo International Business Management Institute (IBMI), Alemanha.









