A Amazônia como fórum e teste
Realizar a COP30 na Amazônia não é um gesto estético ou uma mera homenagem geográfica. É uma decisão política com peso histórico, jurídico e simbólico: desloca o centro de gravidade das negociações climáticas para um território onde a tensão entre conservação, desenvolvimento e desigualdade se torna gritante. Ao escolher Belém como sede oficial e designar Manaus como um dos epicentros dos eventos paralelos, a Presidência brasileira transfere o foco das negociações climáticas das salas de conferência europeias para o coração da floresta tropical, expondo também as contradições internas de seu próprio modelo de desenvolvimento e as exigências do cumprimento de suas obrigações.
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A fronteira amazônica não é uma linha cartográfica. É um espaço onde se sobrepõem territórios indígenas, áreas protegidas, zonas de mineração legal e ilegal, cidades-irmãs, terras agrícolas e rotas para o tráfico ilícito de madeira, animais silvestres, minerais, agrotóxicos, resíduos perigosos e mercúrio. De uma perspectiva climática, é também o ponto de convergência entre a luta contra o desmatamento, a pressão por novas infraestruturas logísticas, a demanda internacional por minerais críticos e a expectativa de que o Brasil se torne um fornecedor de soluções para a bioeconomia. Na prática, é um laboratório de tensões entre narrativas de proteção da floresta tropical, obrigações climáticas e interesses privados transnacionais.
Nesse contexto, a alfândega brasileira deixa de ser um mero órgão técnico de classificação e tributação, tornando-se uma instituição de fronteira em seu sentido mais amplo: um ator que, ao aplicar ou não controles, decide o que entra e o que sai, o que é formalizado e o que é tolerado, o que se torna visível e o que permanece na zona cinzenta das atividades ilícitas ambientais. Cada contêiner inspecionado ou liberado, cada operação de risco selecionada ou descartada, torna-se um micro-palco onde se decide se o Brasil pretende cumprir seus compromissos declarados. É justamente nessa interseção entre promessas climáticas e controle de fronteiras que a COP30 em Manaus transforma a fronteira amazônica em um laboratório visível de coerência.
entre discurso e prática.

As Dez Cartas da COP30: contrato político, estilo evolutivo e autoria
As Dez Cartas da Presidência da COP30, assinadas pelo Presidente da República, não são meros documentos preparatórios ou peças de comunicação institucional. Elas funcionam como um “contrato político” com a comunidade internacional e com a própria sociedade brasileira.
Diferentemente de muitas declarações finais que surgem ao término das Conferências das Partes, estas Cartas são publicadas ex ante, em uma sequência que acompanha o cronograma de preparação do evento e organiza as prioridades, a linguagem e o tom ético da conferência.
As primeiras cartas adotam um estilo histórico de apelo à ação, aludindo à Rio-92, ao Acordo de Paris, ao papel simbólico da Amazônia e à urgência de deter o colapso climático. As cartas subsequentes aprofundam temas como transição justa, financiamento, adaptação e povos indígenas.
povos indígenas e economias locais, além de incorporar referências a decisões da Corte Internacional de Justiça e obrigações erga omnes em matéria ambiental. Em conjunto, as Dez Cartas constituem uma estrutura que permite avaliar a coerência entre o que
O Brasil promete e de fato implementa o que faz: cria parâmetros discursivos verificáveis, com os quais políticas, decisões administrativas e omissões podem ser confrontadas.
Do ponto de vista do direito público econômico e do marco institucional brasileiro, as Cartas também indicam uma mudança estilística: da política climática tratada como política governamental para uma política de Estado que vai além de mandatos específicos.
A insistência na Amazônia como um “bem comum da humanidade” e na justiça climática como critério de legitimidade confere peso a esse discurso. Ao adotar essa retórica e endossá-la no mais alto nível, o Brasil se expõe legalmente e se submete a um escrutínio que não é mais apenas ambiental, mas também político.
também de integridade institucional e coerência entre a política econômica e as obrigações climáticas.
SBCE: mercado de carbono regulamentado e reflexões sobre as fronteiras
A promulgação da Lei nº 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), não pode ser interpretada apenas como um avanço setorial na política climática. Ela representa uma reorganização do direito público econômico nacional. O SBCE estabelece um mercado de carbono regulamentado que obriga os setores com alta emissão de carbono a internalizar os custos ambientais, sob regras definidas pela autoridade competente, criando ativos (créditos) e passivos (obrigações) com efeitos diretos sobre contratos, investimentos, financiamentos e comércio exterior.
Os créditos gerados no Brasil podem funcionar como ativos ambientais na economia global, desde que sua integridade seja reconhecida dentro da arquitetura climática internacional. Paralelamente a mecanismos como o Mecanismo Europeu de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), o SBCE tende a se tornar um parâmetro interno da integridade climática, pressionando as cadeias de suprimentos com alta emissão de carbono.
Este acordo projeta tendências claras em relação à atuação aduaneira na fronteira:
– Atualmente, a alfândega opera em um ambiente onde bens, serviços e créditos de carbono estão interligados;
– aumenta a exigência de rastreabilidade da pegada de carbono e da integridade ambiental dos produtos exportados e importados;
– Os fluxos de crédito e de certificados entram no radar em busca de fraudes, dupla contabilização, reprocessamento e simulações;
– Reforça-se a necessidade de cooperação entre as autoridades aduaneiras, ambientais, financeiras e criminais na gestão de riscos.
Em outras palavras, o SBCE transforma o papel da alfândega: não se trata mais apenas de verificar a classificação tarifária e o valor aduaneiro, mas de integrar parâmetros ambientais e climáticos em suas decisões. Na linguagem do Direito Econômico Público, a fronteira torna-se um ponto de convergência entre regimes climáticos, regulação financeira, política industrial e sistema tributário.
Parecer Consultivo do CIJ e obrigações climáticas erga omnes
O Parecer Consultivo da Corte Internacional de Justiça sobre as obrigações dos Estados em relação às mudanças climáticas reforça essa mudança. Ao afirmar que os Estados podem ser responsabilizados internacionalmente por danos climáticos resultantes de omissões ou ações insuficientes, a CIJ eleva o padrão de diligência exigido e amplia a noção de dano: ela não se limita mais a catástrofes pontuais, mas abrange trajetórias de emissões incompatíveis com as metas de temperatura e com os direitos das gerações presentes e futuras.
Do ponto de vista da governança interna, isso significa que órgãos como a administração aduaneira deixam de ser “atores neutros” e se tornam peças-chave no cumprimento — ou não cumprimento — das obrigações internacionais. Quando não conseguem impor controles, flexibilizam regulamentações sem justificativa técnica ou permanecem em silêncio diante de cenários de risco ambiental, contribuem indiretamente para os danos climáticos. Por outro lado, quando implementam controles inteligentes, facilitam cadeias de suprimentos limpas e priorizam fluxos compatíveis com a transição verde, atuam como garantidoras da boa-fé climática do Estado.
AMUMAs, Green Customs, organizações participantes e Portal Único: a interface climática brasileira
A rede de Acordos Multilaterais sobre o Meio Ambiente (AMAs) — Basileia sobre resíduos perigosos, Roterdã sobre produtos químicos, Estocolmo sobre poluentes orgânicos persistentes, Minamata sobre mercúrio e CITES sobre fauna e flora — constitui um conjunto complexo de obrigações de controle de fronteiras. A Iniciativa Aduaneira Verde, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), juntamente com instrumentos da Organização Mundial das Alfândegas (OMA), como o Quadro SAFE, visa fornecer uma linguagem comum, diretrizes e ferramentas para que as administrações aduaneiras integrem essas obrigações em seus procedimentos diários.
No Brasil, essa interface é fornecida especificamente pelo Portal Único de Comércio Exterior (DUIMP) e pelos Centros Eletrônicos de Processamento de Transações de Responsabilidade Limitada (LPCOs), por meio dos quais órgãos autorizadores como o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca), a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a Polícia Federal e outros emitem pareceres sobre transações sensíveis. Na prática, é nesse ponto de contato que a decisão é tomada.
– Quais mercadorias sujeitas aos AMUMAs podem entrar ou sair do país;
– quais condições eles devem cumprir;
– quais fluxos estarão sujeitos a monitoramento reforçado;
– Quais dados serão consolidados para alimentar a análise de risco e as estatísticas ambientais?
A agenda de Alfândegas Verdes na COP30, ao colocar a integração de sistemas, os riscos ambientais, as evidências científicas e a cooperação internacional na agenda, dialoga diretamente com essa estrutura. A partir desse momento, uma omissão na fronteira deixa de ser um mero problema administrativo e passa a ser uma vulnerabilidade jurídica exposta no novo contexto internacional.
Manaus 2025: o evento Green Customs como um quadro institucional contínuo
Entre os dias 12 e 14 de novembro de 2025, no Hotel Intercity Manaus, será realizado o evento "Alfândegas Verdes" como atividade paralela oficial da COP30. Trata-se de uma iniciativa que reúne a Receita Federal do Brasil, o IBAMA, a Polícia Federal, organizações internacionais como a OMA e a Iniciativa Alfândegas Verdes, organizações multilaterais, representantes aduaneiros de outros continentes e entidades do setor privado e da sociedade civil.
Mais do que uma série de painéis técnicos, o evento funciona como uma espécie de "ensaio institucional aberto", no qual a administração aduaneira brasileira apresenta publicamente seus diagnósticos, projetos, vulnerabilidades e propostas referentes a crimes ambientais, mudanças climáticas e comércio sustentável. Da recepção de abertura aos debates do dia 14, o que emerge é o desenvolvimento de um novo marco para a destinação de bens apreendidos, gestão de riscos e colaboração entre as partes interessadas.
◾Do coquetel de abertura a uma nova gramática do destino das convulsões
O coquetel de abertura, “Do Lixo à Inovação: Transformando Mercados Conscientes em Impacto Positivo”, realizado na noite de 12 de novembro, foi mais do que um simples evento social. Organizado pela Receita Federal do Brasil, em colaboração com o Instituto IDRO, a empresa Yattó, o projeto Recicla+Ação e parceiros locais como o restaurante Caxiri, a chef Deborah Shornik e o empresário Paulo Caimbro, o evento teve um propósito muito mais profundo do que simplesmente “quebrar o gelo” entre as delegações.
Na prática, o evento de coquetéis funcionou como um laboratório vivo para usos inovadores de mercadorias apreendidas: bebidas alcoólicas desviadas do consumo regular transformadas em geleias de alta qualidade; tecidos de roupas falsificadas convertidos em moedas simbólicas que tornam visível o custo da pirataria; cafés especiais produzidos utilizando processos tecnológicos que recuperam lotes comprometidos; e produtos de higiene pessoal reaproveitados como matéria-prima para fragrâncias. Cada estação de comida incorporava uma história de apreensão, reprocessamento e reinterpretação, demonstrando que o descarte não é o único destino possível para produtos ilícitos.
◾Conferência inaugural: Da Rio-92 à COP30, a alfândega como “guardiã do clima”
A sessão de abertura contou com a conferência “Costumes Verdes e a Nova Fronteira Climática”, liderada por Fabiano Coelho (Secretária Especial da Receita Federal do Brasil), Lourdes Maria Carvalho Tavares (Superintendente da RFB na 2ª Região Fiscal) e com a participação remota de Ian
Saunders (Secretário-Geral da OMA) e de Gael Grooby (Diretor de Políticas e Normas da OMA) traçaram um paralelo entre três décadas de história.
Fabiano Coelho retomou o fio condutor histórico que liga a Rio-92 à COP30, destacando como as decisões sobre comércio, tributação e controle aduaneiro sempre estiveram presentes — embora muitas vezes invisíveis — nos debates climáticos. Ele enfatizou a Amazônia como um epicentro de biodiversidade e também como uma fronteira de disputas econômicas, ressaltando que a posição do Brasil no cenário climático depende tanto de sua capacidade de reduzir as emissões quanto de sua credibilidade na aplicação das normas ambientais em suas fronteiras.

Lourdes Tavares Ele forneceu exemplos concretos de operações ambientais realizadas pela Receita Federal na região amazônica, desde apreensões de manganês extraído ilegalmente até contêineres de resíduos e mercúrio, ilustrando como a alfândega é obrigada a lidar simultaneamente com o crime organizado, a exploração econômica da vulnerabilidade social e a pressão internacional por resultados. Em suas palavras, não existe "neutralidade possível" na fronteira: cada omissão reforça as redes ilícitas que corroem a base ambiental e fiscal do país.
Em seguida, o O secretário-geral da Organização Mundial das Alfândegas, Ian Saunders, Ele apresentou o argumento central: a Alfândega Verde não é um programa paralelo ou um complemento à agenda climática, mas sim um pilar da credibilidade do regime multilateral. Enfatizou que a eficiência aduaneira e a gestão de riscos são pré-requisitos para que os Acordos Multilaterais sobre Alfândegas (AMAs) produzam resultados reais, e que a participação ativa de administrações como a brasileira é fundamental para evitar que as fronteiras se tornem "portas dos fundos" para o transporte ilegal de resíduos, produtos químicos e animais silvestres. Sua mensagem deixou claro que a Alfândega Verde se tornará um critério para a legitimidade das alfândegas do século XXI.


O Diretor Interino da Diretoria de Tarifas e Assuntos Comerciais da OMA, Gael Grooby Ela elevou o debate a um nível técnico e institucional e apresentou a agenda de trabalho da OMA sobre Alfândegas Verdes, ferramentas de autoavaliação ambiental, métricas de desempenho ambiental para administrações aduaneiras e novos módulos de treinamento online para agentes de fronteira. Ela enfatizou que, à luz de decisões como o Parecer Consultivo do Tribunal Internacional de Justiça e a evolução do direito climático, as administrações aduaneiras estarão sujeitas ao regime climático internacional, quer queiram ou não.
✔13 de novembro: SER e FAZER com nomes, figuras e histórias
Embora a sessão de abertura tenha estabelecido as bases conceituais, os painéis de 13 de novembro detalharam a agenda com vozes, dados e experiências concretas. Dois pilares — SER e FAZER — emergiram com força, enriquecidos por um tema transversal de comunicação que incentivou a visão da alocação de bens apreendidos como uma política pública, e não como uma questão residual.
◾Painel 1 – Práticas internas sustentáveis e o pilar SER
moderado por Thales Freitas Alves, presidente da Sindireceita, Painel 1 – “Práticas internas sustentáveis nas administrações aduaneiras”“ – reuniu Marina Aiello Sartor (Auditora Fiscal da RFB e Gerente do Projeto Alfândega Verde), Ana Vanessa Ricardo Acosta (Direção Geral de Alfândegas do Paraguai), Fausto Manuel Calix Márquez (Administração Aduaneira de Honduras) e Ana Cristina Trovão (Autoridade Tributária e Aduaneira de Portugal) para discutir como as alfândegas podem se tornar mais consistentes com a agenda climática internamente, em sua gestão interna, infraestrutura e cultura organizacional.
Marina Aiello Sartor apresentou o projeto Green Customs como uma plataforma que organiza as ações da RFB em torno de três pilares – SER, FAZER e INOVAR – enriquecida por uma estratégia de comunicação transversal. Ao falar sobre SER, ele enfatizou que não se trata apenas de reunir boas práticas isoladas, mas de incorporar critérios ambientais em licitações, compras públicas, gestão de resíduos, consumo de energia e uso de infraestrutura física, bem como revisar os protocolos de trabalho internos para reduzir a pegada ambiental da instituição.
Marina descreveu então a “economia de impacto” que pode surgir de apreensões bem geridas: em vez de encarar os bens confiscados como um problema logístico, o projeto vincula-os a iniciativas de reutilização, apoio a empresas locais e fortalecimento de redes de inovação social. O coquetel de abertura foi citado como um exemplo de como a cultura culinária, o design e a economia circular podem interagir com os procedimentos alfandegários.
Os exemplos específicos relatados incluíram:
– uma geleia produzida a partir de bebidas apreendidas, rigorosamente reprocessadas e transformadas em alimento seguro;
– uma moeda feita com tecidos de roupas falsificadas, transformando os resíduos da pirataria em um lembrete educativo sobre o consumo responsável;
– um café especial obtido através de tecnologia que trata bitucas de cigarro e resíduos, reprocessa materiais e gera um produto de valor agregado;
– um ambientador feito com produtos falsificados, que redefine a própria lógica da apreensão.
Ao mencionar o trabalho do Instituto IDRO e de parceiros como o Projeto Recicla+Ação e a Yattó, Marina destacou que os Costumes Verdes não são simplesmente um esforço da RFB, mas dependem da capacidade de articular a academia, o setor privado e a economia popular em cadeias de valor consistentes com a transição verde.
Ana Vanessa Ricardo Acosta, O Diretor da Alfândega do Paraguai apresentou experiências de sua administração em compras públicas sustentáveis, programas de eficiência energética e gestão de resíduos, destacando como pequenas decisões administrativas – como a substituição de insumos, a digitalização de processos ou a reformulação de instalações – podem reduzir o impacto ambiental da instituição e servir de exemplo para outros órgãos do Estado.
FAusto Manuel Calix MárquezO Ministro Diretor da Administração Aduaneira de Honduras relatou a transição de um serviço aduaneiro focado quase exclusivamente na arrecadação de receitas para uma administração que incorpora critérios ambientais em acordos de gestão de riscos.
cooperação e alocação dos bens apreendidos. Ele enfatizou a importância de a agenda verde ser adotada pela alta administração, com metas, indicadores e mecanismos de responsabilização claros.
Ana Cristina TrovãoA Diretora-Geral Adjunta da Autoridade Tributária e Aduaneira Portuguesa explicou como a agenda de descarbonização, o Pacto Ecológico Europeu e os futuros mecanismos de ajustamento das emissões de carbono nas fronteiras levaram as alfândegas europeias a rever os seus procedimentos operacionais. Destacou iniciativas relacionadas com a eficiência energética, a redução do uso de papel, a modernização das infraestruturas físicas e projetos de mobilidade sustentável para servidores, enfatizando que a coerência interna é essencial para exigir compromissos ambientais do setor privado.
Mantendo um tom prático, o painel transmitiu uma mensagem clara: uma agência aduaneira que almeja liderar a agenda verde precisa, antes de tudo, rever suas próprias rotinas, sua cultura institucional e sua pegada ambiental interna. O pilar SER não é mera retórica, mas um conjunto de decisões cotidianas sobre como a instituição se relaciona com seus recursos, suas instalações, suas compras e seu pessoal.
◾Painel 2 – Mudanças climáticas, contingência e o pilar DO
O segundo painel, “Mudanças Climáticas e Planejamento de Contingência na Alfândega: Lições Aprendidas em Áreas Afetadas por Desastres”, foi moderado por Marco Tollemache (Banco Mundial), reuniu Giulia Donnici (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime – UNODC), representantes da Receita Federal brasileira e autoridades de outros países que vivenciaram eventos extremos como enchentes, secas e deslizamentos de terra.
Giulia DonniciA representante do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime apresentou a perspectiva do crime organizado transnacional, observando que os desastres climáticos criam oportunidades para redes ilícitas que exploram o caos institucional, a vulnerabilidade da comunidade e os controles frágeis. Ela enfatizou que os crimes ambientais, o tráfico de resíduos e a mineração ilegal tendem a se intensificar em tempos de crise, quando a capacidade do Estado está sobrecarregada.
A partir daí, a discussão aprofundou-se em dois casos emblemáticos da experiência brasileira recente. O primeiro, as inundações no Rio Grande do Sul, destacou a necessidade de protocolos de contingência para garantir a continuidade do controle aduaneiro, a segurança do pessoal e a proteção das mercadorias, mesmo quando terminais, armazéns e estruturas físicas estão comprometidos. O segundo, as secas extremas na Amazônia, demonstrou como a drástica queda dos níveis dos rios interrompe rotas de transporte, pressiona as fronteiras terrestres e aumenta a vulnerabilidade das comunidades ribeirinhas.
Representantes da Receita Federal descreveram como, no Rio Grande do Sul, foi necessário combinar medidas emergenciais — como a realocação temporária de equipamentos, a priorização de fluxos críticos e a coordenação com outros órgãos — com decisões delicadas sobre o manuseio de mercadorias danificadas, incluindo resíduos perigosos. Na Amazônia, destacaram o impacto da seca nos cursos d'água e a necessidade de reforçar a vigilância em áreas antes consideradas secundárias, onde o crime organizado busca novas oportunidades.
Em todos os casos, o pilar DOING emergiu como a capacidade de traduzir diagnósticos climáticos em protocolos de ação concretos: planos de contingência, matrizes de risco adaptadas a eventos extremos, coordenação interinstitucional e treinamento específico de equipes de fronteira.
◾Painel 3 – Crimes ambientais e a fronteira como linha de frente
moderado por Diego Antônio Santana de OliveiraO Painel 3 reuniu Anna Kobylecka (Iniciativa Aduaneira Verde/PNUMA), Valbert Campos Barbosa (Polícia Federal Brasileira), Narciso Kuanda (Autoridade Tributária da Zâmbia), Yvonnes Ngoli (Autoridade Tributária da Tanzânia), Emmanuel Dime (Direção Geral de Alfândegas do Senegal), Patrice Nzongola (Direção Geral de Alfândegas e Impostos Indiretos da República Democrática do Congo), Valery Sergeyevich Shcherbakov (Federação Russa) e PI Udaya (Sri Lanka) para abordar o tema “Crimes Ambientais, Comércio Ilícito e Riscos Associados ao Uso de Fronteiras”. Embora o título não mencione explicitamente um dos pilares, este painel foi
Está claramente integrado ao DOING, mostrando a ação diária na linha de frente, onde se decide entre a legalidade e o crime ambiental.
Anna Kobylecka Ele apresentou o panorama geral: o tráfico de animais selvagens, a exportação ilegal de madeira, o comércio de resíduos perigosos e o desvio de produtos químicos controlados estão agora entre as principais fontes de financiamento do crime organizado. Ele enfatizou que as redes
Criminosos exploram diferenças regulatórias entre países, deficiências na implementação de medidas antidumping e de mitigação de irregularidades (AMUMAs) e lacunas tecnológicas nas alfândegas, o que ressalta a importância de instrumentos como a Alfândega Verde na harmonização de procedimentos e no treinamento de equipes.
Valbert Campos BarbosaRepresentantes da Polícia Federal e das autoridades alfandegárias africanas ilustraram como as rotas ilícitas são rapidamente reconfiguradas em resposta às operações de fiscalização, alterando os pontos de partida, utilizando empresas de fachada e explorando falhas nos sistemas de informação. Eles relataram casos de carregamentos de madeira declarados como outros tipos de carga, contêineres de resíduos perigosos disfarçados de mercadorias legítimas e o uso de documentos falsificados para burlar os controles.
Neste painel, a fronteira apareceu como uma linha de frente, não apenas física, mas também informacional: a diferença entre uma apreensão e uma remessa bem-sucedida reside muitas vezes na qualidade dos dados, na cooperação internacional e na capacidade de cruzar informações entre alfândegas, polícia, agências ambientais e organizações internacionais.

◾Painel 4 – Comércio exterior sustentável, CBAM e inovação regulatória
O quarto painel, dedicado ao tema “Comércio Exterior Sustentável, CBAM e Inovação Regulatória”, abordou a relação entre instrumentos de comércio internacional, impostos ambientais nacionais e mecanismos de ajuste de carbono nas fronteiras. Os participantes incluíram representantes de administrações europeias, da Comissão Europeia e da OMA, bem como especialistas em tributação econômica verde.
Robin Damberger Ela apresentou a experiência austríaca com o sistema de monitoramento e reporte de emissões nos setores de exportação, demonstrando como os dados do ciclo de vida do produto, os certificados de origem e a documentação aduaneira podem ser integrados em plataformas que permitem às empresas atender a requisitos como os da Diretiva Europeia sobre a Gestão de Ativos Comerciais (CBAM). Ela enfatizou que, embora a CBAM tenha sido percebida por muitos países como uma barreira comercial, ela também pode servir como um incentivo para modernizar as cadeias de produção e melhorar a transparência ambiental.
Ao discutirem a combinação de impostos domésticos sobre carbono, incentivos fiscais verdes e mecanismos de ajuste de fronteira, os participantes do painel destacaram que os países mais avançados em regulamentação doméstica — como o Brasil com o SBCE — tendem a ter maior capacidade de influenciar.
padrões internacionais e proteção da competitividade dos setores expostos. Para as alfândegas, inovação regulatória significa incorporar novos parâmetros em seus sistemas de risco, treinar equipes para interpretar documentação ambiental e estabelecer canais de cooperação com as autoridades fiscais e ambientais.
✔14 de novembro: INOVAÇÃO com alianças, dados e uma nova governança aduaneira
Hoje, 14 de novembro de 2025, enquanto este artigo é publicado pela manhã como parte da programação oficial da COP30, o foco da agenda se volta para o pilar da INOVAÇÃO. Os acontecimentos nos painéis de hoje moldarão ainda mais o futuro da...
Manaus como um laboratório vivo do futuro institucional para as Alfândegas Verdes.
◼El Painel 5 – “Ideas innovadoras orientadas a la excelencia en sostenibilidad” – tendrá como moderador a Felipe Passeto Leite Ribeiro (Sindifisco Nacional) y reunirá a Omar David Flórez Isaza (Dirección de Impuestos y Aduanas Nacionales de Colombia), a representantes de Jamaica, a Andrea Mazzella (Agenzia delle Dogane e dei Monopoli de Italia) y a Douglas Fonseca de Souza (Receita Federal do Brasil). Se espera que los panelistas exploren cómo la inteligencia artificial, el big data, la analítica avanzada, los pasaportes digitales de productos y las etiquetas ambientales pueden ser incorporados a la gestión aduanera para identificar cadenas limpias y cadenas incompatibles con los compromisos climáticos. La expectativa es
O painel demonstra maneiras concretas para que administrações, universidades, centros de pesquisa e organizações internacionais traduzam dados em decisões de risco mais refinadas, certificações confiáveis e a capacidade de diferenciar, em termos técnicos, entre cadeias de suprimentos.
cadeias de abastecimento limpas e incompatíveis com os compromissos climáticos.
Em seguida, ocorrerá o Painel 6 – “Alianças Estratégicas para a Proteção Ambiental das Fronteiras”. Além do título, este painel representa uma experiência em governança de redes, colocando as redes colaborativas no centro do pilar INOVAR. A sessão será moderada.
O evento será conduzido por Marcelo de Castro Ferreira, em sua função de assessor de marketing e planejamento da ASAPRA, e contará com a participação de Adriana Campos de Brito Duarte, analista ambiental e agente federal do IBAMA; Juliana Machado Ferreira, diretora executiva da Freeland Brasil, organização da sociedade civil especializada no combate ao tráfico de animais silvestres e crimes ambientais; Elson Ferreira Isayama, presidente do SINDASP – Sindicato dos Despachantes Aduaneiros Paulistas; e dois representantes da Polícia Federal: João Paulo Garrido Pimentel, Superintendente Regional do Estado do Amazonas, e Paulo Henrique Oliveira, Coordenador do Núcleo de Cooperação Policial Internacional da Amazônia. Espera-se que
Este painel discutirá como estruturar mecanismos de cooperação entre alfândegas, agências ambientais, polícia, promotores, autoridades subnacionais, empresas regulamentadas e organizações especializadas da sociedade civil, para que o combate aos crimes ambientais e a proteção climática no comércio internacional deixem de depender de iniciativas isoladas e passem a se basear em uma governança em rede, equipada com canais formais para troca de informações, operações conjuntas e agendas de treinamento compartilhadas.
A presença conjunta da ASAPRA e da SINDASP neste painel simboliza a ligação entre as redes regionais de despachantes aduaneiros e a agenda global de Alfândegas Verdes.
Ao final deste dia, a própria configuração dos painéis terá solidificado uma mensagem clara: inovar em Alfândega Verde não significa simplesmente adicionar novas tecnologias ou criar novas regras; envolve, principalmente, novas formas de trabalhar em conjunto, nas quais dados, parcerias e
As normas ambientais estão sendo integradas. Neste dia, 14 de novembro de 2025, data de publicação deste artigo, às [hora do]
Amanhã, como parte do programa oficial da COP30, o foco da agenda se volta para o pilar da INOVAÇÃO. Os debates deste dia consolidarão ainda mais a posição de Manaus como um laboratório vivo para o futuro das instituições aduaneiras verdes.
◾ Painel 6 - "Alianças estratégicas para a proteção ambiental das fronteiras“s” – que, além do título, representa uma experiência de governança em rede, colocando as redes colaborativas no centro do pilar INOVAR. A sessão será moderada por Marcelo de Castro Ferreira, na qualidade de consultor de marketing e planejamento da [nome da empresa/organização]. O mais rápido possível, O painel contará com a participação de Adriana Campos de Brito Duarte, analista ambiental e agente federal do IBAMA; Juliana Machado Ferreira, diretora executiva da Freeland Brasil, organização da sociedade civil especializada no combate ao tráfico de animais silvestres e crimes ambientais; Elson Ferreira Isayama, presidente do SINDASP – Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo; e dois representantes da Polícia Federal: João Paulo Garrido Pimentel, Superintendente Regional do Estado do Amazonas, e Paulo Henrique Oliveira, Coordenador do Núcleo de Cooperação Policial Internacional da Amazônia. Espera-se que o painel discuta como estruturar mecanismos de cooperação entre alfândegas, órgãos ambientais, polícia, Ministério Público, autoridades subnacionais, empresas regulamentadas e organizações especializadas da sociedade civil, para que o combate aos crimes ambientais e a proteção climática do comércio internacional avancem para além de iniciativas isoladas, rumo a um modelo de governança em rede, dotado de canais formais para troca de informações, operações conjuntas e agendas de capacitação compartilhadas. A participação conjunta da ASAPRA e da SINDASP neste painel simboliza a ligação entre as redes regionais de despachantes aduaneiros e a agenda global de Alfândegas Verdes.
Ao final deste dia, a própria configuração dos painéis terá solidificado uma mensagem clara: inovar em Alfândega Verde não significa simplesmente adicionar novas tecnologias ou criar novas regras; envolve, principalmente, novas formas de trabalhar em conjunto, nas quais dados, parcerias e
As normas ambientais serão integradas. Hoje, 14 de novembro de 2025, enquanto este artigo é publicado pela manhã como parte da programação oficial da COP30, o foco da agenda se volta para o pilar da INOVAÇÃO. Os acontecimentos nos painéis de hoje consolidarão ainda mais a posição de Manaus como um laboratório vivo para o futuro das instituições aduaneiras verdes.
O que se pode esperar na prática a partir deste ponto?
Em termos muito concretos, o que se desenha a partir de Manaus é uma agenda de implementação com três frentes imediatas: no âmbito da Receita Federal brasileira, na rede nacional de cooperação e na comunidade internacional.
◾Dentro da Receita Federal do Brasil
– Consolidação de um plano operacional para desastres e emergências climáticas que incorpore as lições aprendidas com o Rio Grande do Sul e as secas extremas na Amazônia, com protocolos claros para continuidade de negócios, proteção de servidores e gestão ambiental.
apropriado para os produtos afetados.
– A incorporação progressiva de indicadores ambientais nos sistemas de gestão de riscos, de modo que a seleção de cargas leve em consideração não apenas o valor e a tributação, mas também a pegada ambiental e a sensibilidade ecológica das mercadorias.
– Ampliação da capacitação especializada em crimes ambientais, AMUMAs, Alfândegas Verdes, SBCE e mecanismos como o CBAM, com ênfase nas regiões portuárias e amazônicas mais sensíveis.
◾Na rede nacional de cooperação
– Mecanismos mais estáveis para o trabalho conjunto entre a RFB, o IBAMA, a Polícia Federal, os ministérios setoriais, os governos estaduais e municipais, incluindo operações permanentes para o controle de fluxos críticos (madeira, minerais, fauna, resíduos, produtos químicos).
– Utilizar a experiência de Manaus para conceber projetos-piloto para a alocação inovadora de bens apreendidos, interligando alfândegas, agências ambientais, o setor privado e organizações sociais em cadeias de valor verdes, com compromissos verificáveis com a integridade climática e
rastreabilidade.
◾Na comunidade internacional
– A projeção de Manaus como referência prática: manuais, estudos de caso, métricas e protocolos resultantes do evento “Alfândegas Verdes” podem alimentar a agenda da OMA (Organização Mundial das Alfândegas), da Iniciativa Alfândegas Verdes e de organizações multilaterais, ajudando a traduzir princípios.
em padrões operacionais.
– A consolidação de uma rede de cooperação amazônica e internacional sobre crimes ambientais, mudanças climáticas e comércio sustentável, capaz de reunir alfândegas, polícia, promotores, autoridades ambientais e organizações especializadas para operações conjuntas;
troca de informações e treinamento.
Para fechar, O que se espera após Manaus não é um novo discurso, mas a demonstração concreta de que cada apreensão, cada destino de mercadoria, cada análise de risco e cada decisão de liberar ou reter uma remessa deixa uma marca real na trajetória climática do país.
A agenda das Alfândegas Verdes só se consolidará quando a fronteira for reconhecida — dentro e fora do Brasil — como um espaço onde a justiça climática é construída no trabalho diário, e não como um recurso retórico na agenda institucional.

As imagens foram fornecidas pelo autor da coluna, Marcelo De Castro, e correspondem ao evento realizado em Manaus.
Referências
ALMEIDA, Paula Wojcikiewicz; VOLLERS, Lucas; MARIANI, Mariana de Brito. Tribunal do Haiti afirma que os Estados podem ser responsabilizados pelos danos climáticos. Jota, 16 de agosto de 2025.
Convenção de Basileia sobre o Controle dos Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e sua Eliminação. Basileia, 22 de março de 1989.
BRASIL. COP30 Brasil Amazônia. Cartas da Presidência. Belém: Presidência da COP30, 2025. Acesso em: 10 de novembro de 2025.
BRASIL. Lei nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021, e outras disposições.
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Despachante Aduaneiro, Graduado em Economia e Mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Cofundador da EBIMEX Comércio Exterior e Diretor do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo (SINDASP), Brasil. Atua como Assessor de Marketing e Comunicação Institucional na Associação Internacional de Despachantes Aduaneiros Profissionais (ASAPRA) e é membro da Câmara Brasileira de Produtos Farmacêuticos (CBFARMA) da CNC. Possui certificações em Inteligência Artificial pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e em Marketing e Comunicação pelo International Business Management Institute (IBMI), Alemanha.
