InícioComércioO que a América Latina precisa para assinar acordos da OEA com a União Europeia?...

O que a América Latina precisa para firmar acordos de Operador Econômico Autorizado (OEA) com a União Europeia? Elementos-chave para a integração aduaneira estratégica.

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Num contexto de fragmentação geoeconômica e reconfiguração das cadeias de valor globais, os programas de Operador Econômico Autorizado (OEA) e seus Acordos de Reconhecimento Mútuo (ARM) tornaram-se instrumentos centrais para facilitar o comércio baseado na confiança. Contudo, embora a União Europeia (UE) tenha avançado em acordos com economias desenvolvidas, nenhum país latino-americano — apesar de progressos significativos — conseguiu ainda finalizar um acordo de reconhecimento mútuo com o bloco europeu.

Este é um momento crucial. A UE é um dos principais parceiros comerciais da região, e o comércio de bens, especialmente com o MERCOSUL, ultrapassou os 111.000 mil milhões de euros em 2024, representando um crescimento de mais de 36% na última década. Este comércio continua concentrado em produtos primários — como a soja, o café e a carne — refletindo uma integração internacional ainda relativamente pouco diversificada.

Nesse cenário, os Acordos de Operador Econômico Autorizado (OEA) permitem que duas administrações aduaneiras reconheçam seus respectivos programas de OEA como equivalentes, concedendo benefícios recíprocos aos operadores certificados: menos controles, desembaraço prioritário e maior previsibilidade logística. Na prática, eles eliminam redundâncias e criam verdadeiros “corredores seguros” para o comércio internacional. Sua base reside na Estrutura SAFE da Organização Mundial das Alfândegas (OMA), que promove simultaneamente a segurança e a facilitação do comércio por meio de padrões globais e cooperação entre as alfândegas e o setor privado.

Mas esses acordos não são automáticos. A UE exige uma equivalência operacional genuína entre os sistemas: programas OEA consolidados, gestão de riscos compatível, troca segura de informações e quadros jurídicos robustos. Acima de tudo, avalia a capacidade institucional e a coerência na aplicação dos controlos.

Esse nível de rigor explica por que a UE assinou acordos comerciais regionais com um número limitado de parceiros — como os Estados Unidos, o Japão e o Canadá — caracterizados por altos padrões regulatórios e tecnológicos. A América Latina, por outro lado, fez progressos significativos, mas desiguais.

Ainda assim, a região construiu uma importante rede de acordos. Em 2022, dez países — Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai — assinaram um acordo regulatório regional, um dos esforços mais ambiciosos no mundo em desenvolvimento. Isso se complementa com iniciativas no âmbito do MERCOSUL, da Comunidade Andina e da Aliança do Pacífico, demonstrando um claro compromisso com a integração regulatória.

Mais revelador ainda é o fato de que vários países da América Latina, incluindo os da América Central e do Caribe, já firmaram acordos com parceiros-chave no sistema global. Economias como México, Colômbia, Peru, Brasil, Uruguai, República Dominicana, Costa Rica e Guatemala possuem acordos de reconhecimento mútuo com os Estados Unidos, vinculados ao programa C-TPAT. Da mesma forma, a Coreia do Sul desenvolveu uma estratégia ativa de engajamento com a região, assinando Acordos de Reconhecimento Mútuo (ARM) com México, Peru, Colômbia, Brasil, Uruguai, República Dominicana e Costa Rica. Isso demonstra que muitos países da América Latina têm capacidade para atender a exigentes padrões internacionais.

O caso da República Dominicana é ilustrativo. Essa nação caribenha firmou acordos tanto com os Estados Unidos quanto com a Coreia do Sul, demonstrando que mesmo economias menores podem atender a padrões exigentes e se posicionar em redes globais confiáveis. Além disso, ambos os parceiros mantêm acordos com a UE. Isso sugere que o obstáculo a um acordo comercial regional (ACR) entre a UE e os países latino-americanos não reside na falta de capacidades individuais.

A importância desse ponto se amplifica ao considerarmos a estrutura produtiva da região. Embora as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) representem mais de 99% das empresas latino-americanas, apenas cerca de 10% exportam diretamente, em comparação com aproximadamente 40% na União Europeia. Além disso, mais de 80% do valor das exportações está concentrado em grandes empresas, o que limita a diversificação e o acesso das MPMEs aos mercados internacionais.

É aqui que o debate sobre Operadores Econômicos Autorizados (OEA) e Acordos de Redução do Comércio (ART) assume uma dimensão estratégica. A recente evolução do Quadro SAFE reflete precisamente essa preocupação. A última edição da norma incorpora explicitamente a necessidade de integrar as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) nos programas de OEA, reconhecendo que a sua maior participação é essencial para alcançar um comércio mais inclusivo e eficiente.

Da mesma forma, um relatório conjunto da OMA, da Organização Mundial do Comércio e da Câmara de Comércio Internacional destaca que a participação das PMEs é fundamental para que os programas OEA alcancem seu pleno potencial, facilitando sua integração nas cadeias de suprimentos globais e melhorando sua competitividade.

Nesse contexto, o recente acordo entre a União Europeia e o Mercosul abre uma janela de oportunidade estratégica. Embora represente um marco em termos de liberalização comercial e acesso a mercados, ele não inclui — pelo menos por enquanto — um acordo de reconhecimento mútuo da OEA entre os dois blocos. Essa ausência evidencia uma lacuna significativa: progressos estão sendo feitos no acesso a mercados, mas não na redução de atritos operacionais.

Reduzir essa lacuna poderia ter efeitos transformadores. Um acordo comercial regional (ACR) entre a UE e a América Latina não só reduziria os tempos e custos logísticos, como também contribuiria para a democratização do comércio internacional. Para as PMEs, isso significaria passar de uma participação indireta — por meio de intermediários — para uma integração mais direta nas cadeias de valor globais.

Em resumo, a América Latina demonstrou sua capacidade de construir confiança tanto em nível bilateral quanto regional. O desafio agora é ampliar essa confiança, harmonizar padrões e consolidar capacidades institucionais para dialogar em pé de igualdade com a União Europeia.

Porque, em última análise, os acordos de reconhecimento mútuo não apenas facilitam o comércio: eles também fortalecem a segurança da cadeia logística e abrem novas oportunidades competitivas para as PMEs.

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Advogado especializado em direito econômico internacional, alfândega efacilitação do comércio. Ela trabalhou no Serviço Aduaneiro da República Dominicana e emorganizações multilaterais como o Centro de Assessoria Jurídica para Assuntos da OMC(ACWL) e a Organização Mundial das Alfândegas (OMA), onde participou em iniciativas.de reformas aduaneiras, facilitação do comércio e capacitação paraAmérica Latina e Caribe. Atualmente, ela atua como Diretora Comercial eOperações de armazenamento global na Espanha. Correio eletrônico[email protected]

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