introdução
A função aduaneira contemporânea está passando por uma transformação estrutural sem precedentes. A aceleração do comércio eletrônico, a digitalização dos processos logísticos, a fragmentação das cadeias de valor globais, o aumento dos conflitos geopolíticos e o surgimento de novas ameaças transnacionais modificaram substancialmente o ambiente operacional das administrações aduaneiras. Na América Latina, onde o comércio exterior representa uma parcela significativa do produto interno bruto em economias abertas como México, Chile, Panamá e República Dominicana, a eficiência aduaneira é um elemento central para a competitividade econômica, a estabilidade fiscal e a segurança jurídica do comércio internacional.<sup>1</sup>
Nesse contexto, a profissionalização do pessoal aduaneiro não pode ser considerada uma variável secundária nos processos de modernização institucional. A adoção e a implementação efetiva de normas internacionais para a formação profissional aduaneira são requisitos estruturais para garantir a coerência regulatória, a legitimidade institucional e a capacidade de resposta a um ambiente global dinâmico.
O Programa PICARD (Parcerias em Pesquisa e Desenvolvimento Acadêmico em Alfândega) da Organização Mundial das Alfândegas (OMA) representa a arquitetura mais desenvolvida de padronização profissional na área aduaneira. No entanto, a rápida evolução do comércio internacional exige não apenas sua implementação sistemática na América Latina, mas também sua atualização dinâmica diante dos desafios emergentes.
II. A arquitetura internacional da profissionalização aduaneira
A Organização Mundial das Alfândegas, que engloba 186 administrações aduaneiras responsáveis pelo processamento de aproximadamente 99% do comércio global, desenvolveu o Programa PICARD como uma estrutura para a profissionalização do setor. Este programa estabelece padrões de competência aplicáveis tanto aos níveis estratégicos quanto operacionais da administração aduaneira, integrando conhecimento técnico especializado, habilidades de gestão pública e princípios de ética e integridade.
Os padrões exigem domínio de:
- O Acordo de Marrakech e os instrumentos da OMC.
- A Convenção de Quioto Revisada.
- Regras sobre classificação tarifária, origem e valoração.
- Gestão e controle de conformidade.
- Instrumentos de integridade e ética pública.
Do ponto de vista jurídico, essas normas constituem um quadro normativo técnico que complementa as obrigações internacionais assumidas pelos Estados. Não são normas vinculativas, mas sim parâmetros de boas práticas internacionais.
Atualmente, a OMA reconhece 16 universidades e 26 programas acadêmicos alinhados com o PICARD. No entanto, a participação latino-americana nesse reconhecimento é limitada, refletindo uma lacuna regional na institucionalização acadêmica das questões aduaneiras.
A padronização profissional também facilita a cooperação entre as administrações.
costumes, promovendo estruturas comuns de competência técnica e interpretação.
regulamentos.
III. Transformação do ambiente global e requisitos de treinamento
- Evolução do papel estratégico das alfândegas
As agências aduaneiras deixaram de operar exclusivamente como entidades de arrecadação de receitas ou controle de fronteiras. Seu papel se expandiu para incluir a facilitação do comércio, a proteção social, a segurança nacional, a implementação de compromissos ambientais e a cooperação interinstitucional.
O surgimento de conflitos internacionais, guerras comerciais, crises sanitárias como a pandemia de COVID-19 e desastres naturais testou a resiliência institucional das administrações aduaneiras. Gerenciar crises logísticas e garantir a continuidade operacional exigem expertise em planejamento estratégico, análise sistêmica de riscos e coordenação interinstitucional.
2. Evolução do crime e do cibercrime
O crime transnacional incorporou ferramentas digitais, criptomoedas e
Plataformas eletrônicas para burlar controles tradicionais. Crimes cibernéticos ligados ao comércio internacional, falsificação de documentos digitais e o uso de inteligência artificial para aprimorar esquemas de evasão representam novos desafios técnicos.
A formação profissional deve incorporar competências em análise de dados, pesquisa digital, cibersegurança e cooperação internacional em inteligência aduaneira.
3. Questões emergentes
A agenda aduaneira contemporânea inclui dimensões que exigem atualização.
permanente:
- Tecnologias disruptivas: Inteligência artificial, blockchain e big data estão redefinindo o
Gestão de riscos e sistemas de controle seletivo. - Proteção ambiental e costumes ecológicos: a implementação de compromissos
As questões ambientais exigem conhecimento especializado no comércio de bens sensíveis e
regulamentações multilaterais. - IIgualdade de gênero e diversidade: Liderança inclusiva fortalece a legitimidade
institucional e melhora a qualidade da tomada de decisões. - Comércio eletrônico: Na América Latina, tem crescido a taxas superiores a 20% ao ano.
Desde 2020, Brasil e México representam mais de 60% do mercado regional.
Esse fenômeno aumentou exponencialmente o volume de remessas de baixo valor, o que
Isso exige novas habilidades em análise de dados, inteligência artificial e gestão.
riscos. - Gestão de emergência: Em contextos de desastres naturais, emergências sanitárias ou crises humanitárias, as administrações aduaneiras devem implementar mecanismos que permitam o desembaraço rápido de mercadorias prioritárias sem comprometer os controles regulatórios.
Isso exige pessoal treinado para implementar procedimentos de facilitação excepcionais e coordenar-se eficazmente com outras autoridades fronteiriças.
Esses desafios demonstram que a profissionalização aduaneira não pode ser concebida como um modelo estático.
IV. Liderança e posicionamento institucional
O fortalecimento da liderança aduaneira é crucial para a posição da instituição perante outras agências governamentais. A alfândega interage com autoridades fiscais, sanitárias, agrícolas, ambientais e de segurança.
A formação alinhada com as normas internacionais fortalece a autoridade técnica, melhora a coordenação interinstitucional e garante a implementação consistente das obrigações multilaterais.
A existência de múltiplas organizações internacionais que tratam de questões comerciais não diminui a necessidade de normas aduaneiras; pelo contrário, aumenta a exigência de coerência técnica e profissionalização.
V. Panorama comparativo na América Latina
A entrada em vigor do Acordo de Facilitação do Comércio (AFC) da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2017 consolidou legalmente a obrigação de modernizar os procedimentos, tornar as regras transparentes e fortalecer a cooperação interinstitucional.
A América Latina demonstra progressos desiguais na implementação do Acordo:
| País | Percentagem da receita aduaneira em relação à receita tributária. 4 | Implementação do AFC 5 |
| Argentina | 8 -% 10 | 88% |
| Bolívia | 20 -% 25 | 78% |
| Brasil | 18 -% 22 | 85% |
| Chile | 10 -% 12 | 98% |
| Colômbia | 15 -% 18 | 82% |
| Costa Rica | 12 -% 15 | 86% |
| Cuba | 18 -% 22 | 70% |
| República Dominicana | 18 -% 22 | 75% |
| Equador | 15 -% 18 | 85% |
| El Salvador | 20 -% 25 | 80% |
| Guatemala | 30 -% 35 | 70% |
| Honduras | 25 -% 30 | 72% |
| México | 12 -% 14 | 95% |
| Nicarágua | 25 -% 30 | 74% |
| Panamá | 18 -% 22 | 85% |
| Paraguai | 15 -% 18 | 83% |
| Peru | 14 -% 16 | 80% |
| Uruguai | 10 -% 12 | 92% |
| Venezuela | 20 -% 25 | 65% |
A análise desses dados revela uma relação direta entre a dependência fiscal do comércio exterior e a necessidade de sólidas capacidades técnicas. Países com uma maior proporção de receita aduaneira necessitam de sistemas de treinamento robustos para garantir uma arrecadação tributária eficiente e segurança jurídica.
A implementação eficaz dessas disposições depende não apenas da infraestrutura tecnológica, mas também da capacidade técnica e jurídica do pessoal aduaneiro para interpretar e aplicar as normas internacionais. Nesse contexto, a formação profissional baseada em normas internacionais torna-se um elemento fundamental para reduzir as lacunas de capacidade institucional existentes entre as administrações aduaneiras da região.
VI. Formação acadêmica em alfândega e desenvolvimento universitário na América Latina
Na América Latina, a formação universitária em assuntos aduaneiros cresceu principalmente em programas de comércio internacional, logística e cadeia de suprimentos, direito econômico internacional e administração pública. No entanto, a oferta acadêmica especializada em estudos aduaneiros ainda é mais limitada do que na Europa. Muitos programas incluem módulos ou especializações em alfândega, mas nem sempre constituem programas acadêmicos completos dedicados exclusivamente à gestão aduaneira.
No entanto, na última década houve um crescimento significativo em programas relacionados ao comércio internacional e à facilitação do comércio, impulsionado pela implementação do Acordo de Facilitação do Comércio da OMC, pela digitalização do comércio internacional e pela crescente complexidade da gestão de fronteiras.
Contudo, em vários países da região, persiste uma elevada rotatividade política em cargos de gestão, juntamente com a ausência de certificação profissional obrigatória e a formação reativa baseada em workshops pontuais. Esta disparidade afeta diretamente a estabilidade institucional e a continuidade das reformas.
Na Europa, por exemplo, diversas universidades desenvolveram programas avançados em gestão aduaneira e de fronteiras. Instituições acadêmicas em países como Espanha, Alemanha, Suíça e Holanda incorporaram cursos especializados em regulamentação aduaneira, segurança da cadeia de suprimentos e facilitação do comércio em programas de pós-graduação em comércio internacional.
Essa diferença regional destaca uma oportunidade estratégica para a América Latina: fortalecer a cooperação entre universidades, administrações aduaneiras e organizações internacionais, a fim de expandir programas acadêmicos especializados alinhados aos padrões globais.
A consolidação de uma rede regional de programas acadêmicos em matéria aduaneira contribuiria não apenas para o desenvolvimento das capacidades institucionais, mas também para a geração de pesquisa aplicada que permita abordar os desafios contemporâneos do comércio internacional.
VII. Profissionalização e garantias legais
A formação profissional em matéria aduaneira transcende a esfera puramente técnica ou operacional. Na realidade, constitui um elemento central para o fortalecimento do Estado de Direito.
Na gestão do comércio internacional, a profissionalização contribui para a correta aplicação das normas, a previsibilidade regulatória e a legitimidade institucional das administrações aduaneiras. Nesse sentido, a profissionalização impacta diretamente diversos princípios jurídicos e administrativos, incluindo:
-
- Princípio da legalidade – O treinamento técnico reduz a discrição
inadequado e reforça a correta aplicação das normas aduaneiras.
- Princípio da legalidade – O treinamento técnico reduz a discrição
-
- Segurança jurídica – A uniformidade interpretativa gera previsibilidade para
operadores econômicos, reduzindo a incerteza nas operações
transfronteiriço.
- Segurança jurídica – A uniformidade interpretativa gera previsibilidade para
-
- Redução de litígios administrativos – Erros técnicos em
A classificação, a origem ou a valoração geram controvérsia, portanto a
A profissionalização reduz os custos com litígios e os custos institucionais.
- Redução de litígios administrativos – Erros técnicos em
-
- Boa governança e prestação de contas – Treinamento em ética e
A integridade fortalece os mecanismos de controle interno e transparência, consolidando-os.
confiança pública.
- Boa governança e prestação de contas – Treinamento em ética e
-
- Competitividade económica – Um sistema aduaneiro profissionalizado ajuda a reduzir
tempos de despacho e melhorias clima de investimento.
- Competitividade económica – Um sistema aduaneiro profissionalizado ajuda a reduzir
VIII. Conclusão
O treinamento é um elemento fundamental na modernização da gestão aduaneira, mas deve ser
Relevante, atualizado e alinhado com as reais demandas do comércio internacional.
É essencial fortalecer as pessoas que trabalham nos bastidores, tanto no setor público quanto em outros setores.
assim como no setor privado. O treinamento profissional em alfândega é fundamental para uma gestão eficaz.
eficiente e globalizada.
A implementação eficaz de normas internacionais para a formação profissional.
As normas aduaneiras e a promoção da aprendizagem contínua reforçam a segurança e a competitividade.
do comércio internacional. A PICARD representa uma base sólida para a profissionalização,
Mas a rápida evolução do ambiente internacional exige sua atualização dinâmica e sua
aplicação sistemática.
Notas e referências
1. De acordo com dados do Banco Mundial, o comércio internacional de bens e serviços (exportações + importações) representou aproximadamente 78% do PIB no México, cerca de 60-65% no Chile, mais de 80% no Panamá e aproximadamente 52% na República Dominicana nos últimos anos, refletindo o alto grau de abertura comercial dessas economias.
2 OMA, informações institucionais oficiais: https://www.wcoomd.org
3 OMA, PICARD Visão geral: https://www.wcoomd.org/en/topics/capacity-building/activities-and-
programas/desenvolvimento-de-pessoas/aprendizagem/programas-de-desenvolvimento/cb_picard_overview.aspx
4. CEPAL, Panorama Fiscal da América Latina: https://www.cepal.org
5. Base de dados de acordos de facilitação do comércio da OMC: https://tfadatabase.org
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- Organização Mundial das Alfândegas / Rede Internacional de Universidades Aduaneiras. Mundo
Diário da Alfândega. Canberra.
- Organização Mundial das Alfândegas / Rede Internacional de Universidades Aduaneiras. Mundo
Advogado especializado em direito econômico internacional, alfândega efacilitação do comércio. Ela trabalhou no Serviço Aduaneiro da República Dominicana e emorganizações multilaterais como o Centro de Assessoria Jurídica para Assuntos da OMC(ACWL) e a Organização Mundial das Alfândegas (OMA), onde participou em iniciativas.de reformas aduaneiras, facilitação do comércio e capacitação paraAmérica Latina e Caribe. Atualmente, ela atua como Diretora Comercial eOperações de armazenamento global na Espanha. Correio eletrônico[email protected]








