Na quarta-feira (18 de março de 2026), os tribunais federais argentinos começaram a analisar um processo relacionado a um projeto energético planejado para a cidade uruguaia de Paysandú, localizada em frente à cidade de Colón, na região de Entre Ríos, às margens do rio Uruguai, cuja eventual execução poderia gerar impactos ambientais em território argentino.
Nesse contexto, a Procuradoria Federal de Concepción del Uruguay emitiu o Parecer nº 199/2026, no âmbito do processo nº FPA 3276/2026, intitulado “Michel, Guillermo e outros contra a República Oriental do Uruguai – Estado Uruguaio – e outro, referente a diversos danos”, em processo perante o Tribunal Federal de Concepción del Uruguai nº 2, Secretaria Civil 2.
A procuradora federal María Josefina Minatta analisou qual tribunal deveria intervir e concluiu que o caso deveria prosseguir perante o tribunal federal local.
Segundo a decisão, o fato de a ação judicial ser movida contra um Estado estrangeiro não autoriza automaticamente a intervenção do Supremo Tribunal de Justiça da Nação. O Ministério Público salientou que a competência originária do mais alto tribunal é excepcional e aplica-se apenas nos casos expressamente previstos nos artigos 116 e 117 da Constituição Nacional.
Na prática, a decisão ainda não resolve o cerne do conflito, mas define onde o caso será analisado: o processo seguirá seu curso no tribunal federal de Concepción del Uruguay, que deverá avaliar os argumentos e as medidas solicitadas pelos demandantes.
Demanda e atores
A ação judicial foi ajuizada em 12 de março pelo Deputados nacionais Guillermo Michel e Marianela Marclay e senador nacional Adán BahlRepresentantes da província de Entre Ríos.
Trata-se de uma ação cível ordinária para prevenção de danos, com fundamento nos artigos 1710 e 1711 do Código Civil e Comercial do país e no artigo 319 do Código de Processo Civil e Comercial.
A ação é dirigida contra a República Oriental do Uruguai e a empresa HIF Global SA, responsável pelo projeto industrial planejado em Paysandú, na margem leste do rio Uruguai e em frente à cidade argentina de Colón.
O projeto energético em questão
Uma grande instalação industrial, com chaminés que se erguem no horizonte costeiro, tornou-se um elemento central do conflito. O projeto prevê a construção de uma fábrica de produção de combustíveis sintéticos às margens do rio Uruguai, uma hidrovia compartilhada que forma a fronteira natural entre os dois países.
A HIF Global é uma empresa multinacional especializada em eletrocombustíveis.com projetos semelhantes em Punta Arenas (Chile) e Rio de Janeiro (Brasil). Seus acionistas incluem empresas de origens diversas, como a montadora alemã Porsche, a empresa japonesa de energia Idemitsu e a empresa chilena Andes Mining & Energy (AME).
O projeto prevê a produção de combustíveis sintéticos — incluindo gasolina sintética — capazes de substituir os combustíveis fósseis em motores de combustão interna, com um potencial balanço neutro em carbono. Isso seria alcançado utilizando hidrogênio verde gerado no próprio complexo industrial, combinado com dióxido de carbono biogênico parcialmente capturado da combustão de resíduos florestais e emissões da usina de bioetanol Alcoholes del Uruguay (ALUR), também localizada em Paysandú.
A abordagem ambiental
De acordo com os autos do processo, os danos alegados pelos demandantes estariam ligados aos possíveis impactos ambientais decorrentes da instalação industrial na região fronteiriça com a Argentina.
Os intervenientes defendem que o empreendimento deve ser avaliado através dos mecanismos bilaterais de informação e consulta previstos no Estatuto do Rio Uruguai, administrados pela Comissão Administrativa do Rio Uruguai (CARU).
Da mesma forma, a apresentação evoca como O precedente é a decisão proferida em 2010 pelo Tribunal Internacional de Justiça na disputa entre a Argentina e o Uruguai. Devido à instalação de fábricas de celulose no mesmo curso do rio, destaca-se a relevância do princípio da prevenção ambiental e da cooperação entre os Estados ribeirinhos.
As medidas solicitadas incluem ações preventivas, como inspeções judiciais nas margens do rio Uruguai e estudos sobre a qualidade de suas águas.
Um conflito em desenvolvimento
As tensões estão aumentando à medida que o projeto avança — seu primeiro memorando de entendimento foi assinado em 2024. De acordo com o cronograma da empresa, a construção começaria no segundo semestre de 2026 e se estenderia até 2029.
Por ora, a decisão judicial marca apenas o início do processo: o tribunal federal de Entre Ríos ficará encarregado de analisar o caso.
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