Na última quinta-feira de maio (28), encerrou-se em São Paulo, Brasil, o Seminário Internacional da OEA 2026, encontro que, após doze edições consecutivas, consolidou-se como uma das principais plataformas de articulação entre órgãos públicos e o setor privado para promover a facilitação do comércio e a integração logística regional.
Nesse contexto, John Mein, Coordenador Executivo da Procomex, conversou com Aduana News (*) sobre as transformações pelas quais o comércio internacional está passando, com foco na digitalização da troca de dados nos corredores e nos desafios da cooperação regional, incentivando ao mesmo tempo uma participação mais estreita das entidades privadas argentinas nas iniciativas promovidas pela organização para simplificar o comércio exterior e fortalecer conjuntamente a integração regional.
Coordenação público-privada
NOTÍCIAS ADUANEIRAS: O senhor ocupou cargos de liderança no Grupo Consultivo do Setor Privado (GCSP) da Organização Mundial das Alfândegas e atualmente é o Coordenador Executivo da Procomex, organização responsável por este Seminário Internacional de Operador Econômico Autorizado (OEA). O Brasil desempenha um papel estratégico na integração logística e comercial da América do Sul, pois faz fronteira com todos os países da região, exceto Chile e Equador. Nessa perspectiva, qual considera ser a principal mensagem deste encontro em relação ao futuro do comércio exterior na região?
JOHN MEINA mensagem principal é que estamos atravessando um período de profunda transformação. Não se trata apenas de mudanças tecnológicas, mas sobretudo de mudanças culturais.
Estamos em transição de uma sociedade que ainda gerencia documentos para uma que gerencia e utiliza dados, possibilitando a aplicação de práticas analíticas e de inteligência muito mais avançadas. Essa evolução é essencial para acompanhar a aceleração do comércio internacional.
Ao mesmo tempo, a forma como os setores público e privado interagem está mudando, assim como a forma como as diferentes agências públicas interagem entre si. O desafio é trabalhar de forma coordenada, com uma visão nacional, abandonando as perspectivas fragmentadas focadas exclusivamente em cada instituição individual.
Nesse novo cenário, a participação do setor privado é essencial. Uma mudança de paradigma também está em curso: não se trata mais apenas de gerenciar fronteiras físicas ou postos de controle, mas de gerenciar cadeias de valor cada vez mais complexas e integradas.
fronteiras terrestres
NOTÍCIAS ADUANEIRAS: De fato, o lema do seminário é "Conexões para uma logística segura, eficiente e em conformidade". A competitividade do comércio exterior depende cada vez mais da coordenação entre órgãos públicos e o setor privado?
JOHN MEIN: Sem dúvida. Acredito que progressos significativos foram feitos nessa área, embora ainda haja um longo caminho a percorrer.
Na área de programas de compliance e confiança, foram analisados diversos exemplos brasileiros durante o dia, como o Programa OEA (Operador Econômico Autorizado), o Programa de Compliance do Operador e a iniciativa Remessa Conforme, além da proposta de desenvolvimento de um esquema similar para instalações portuárias, que ainda não possui implementação específica.
Tudo isso demonstra que foram dados passos significativos, mas também que ainda existem amplas oportunidades para aprofundar e consolidar esses processos. Em suma, houve progresso concreto, mas ainda há muito a ser feito.
Roteiro regional
NOTÍCIAS ADUANEIRAS: O Brasil vem avançando na integração institucional, digitalização e facilitação do comércio. No entanto, nesse processo, quais são os principais desafios que ainda precisam ser superados para alcançar operações mais eficientes e competitivas?
JOHN MEIN: A gestão coordenada das fronteiras continua sendo um dos principais desafios para a facilitação do comércio. Na prática, a fluidez logística das mercadorias é frequentemente determinada pelo desempenho das agências envolvidas no controle de fronteiras, uma vez que o ritmo dos processos é, em última análise, ditado pelo elo mais lento da cadeia.
A situação é ainda mais complexa nas fronteiras terrestres, onde a eficiência depende não só das agências de um país, mas também da capacidade operacional das autoridades do outro lado da fronteira.
Portanto, há amplo espaço para avanços na gestão coordenada de fronteiras. Nesse contexto, está em andamento um trabalho com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em uma iniciativa destinada a fortalecer essa agenda entre os países do Cone Sul, particularmente Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile.
NOTÍCIAS ADUANEIRAS: Poderia explicar em que consiste a iniciativa que está sendo promovida em conjunto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e quais são os objetivos específicos que ela busca alcançar?
JOHN MEIN: A iniciativa surge de dois diagnósticos anteriores: um preparado pela Procomex sobre a gestão coordenada das fronteiras no MERCOSUL, com financiamento do Banco Mundial, e outro desenvolvido no âmbito do Corredor Bioceânico de Capricórnio, com apoio do BID.
Ambos os estudos identificaram mais de 300 recomendações destinadas a melhorar os processos fronteiriços. No entanto, o principal desafio não reside no desenvolvimento de diagnósticos, mas na implementação efetiva das medidas pelas diversas agências governamentais envolvidas.
Com base nessa necessidade, o BID apoiou a proposta e forneceu financiamento para impulsionar o projeto, designando a Procomex como secretaria técnica para esse esforço de coordenação regional.
A iniciativa reúne agências do Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile e Argentina ligadas às áreas de alfândega, transporte e agricultura, bem como comitês nacionais de facilitação do comércio. Representantes dos diversos países envolvidos na agenda participam desse processo.
● Argentina: Gisela Montenegro (Alfândega), Yanina Outi (Agricultura), Reina Sotillo (Comissão Nacional de Fronteiras) e Jorge Zarbo (Transportes).

● Brasil: Antônio Márcio de Oliveira Aguiar (Alfândega), Michelle Coghetto da Rocha (CNFC), Cléverson Freitas (Agricultura) e Cálicles Mânica (Transporte).

● Chile: Bernardita Palacios Sheggia (Alfândega), Muriel Gana Schulbach (Agricultura) e Pablo Ortiz (Transporte) e Ninel Calistro (CNFC)

● Uruguai: Laura Dighiero (Alfândega), Agr. Engenheiro. Pablo Faguaga (Agricultura), María Fernanda Ouviña (Transportes) e Valeria Brito (CNFC).

● Paraguai: Julio Eduardo Rojas Ramírez (Agricultura), Hernán Gabriel Muñoz Pérez (CNFC), Juan Ramón Velázquez Vera (Transportes), Marcelo Ortiz (Alfândega) e Cinthia Acosta (Alfândega).

O objetivo é construir um roteiro comum para impulsionar a implementação de melhorias concretas rumo a uma gestão de fronteiras mais coordenada e eficiente, com lançamento previsto para março de 2027.
Corredores alternativos
NOTÍCIAS ADUANEIRAS: Você acha que a América Latina está entrando em uma nova fase de cooperação regional baseada em confiança, interoperabilidade e coordenação de fronteiras?
JOHN MEIN: Acredito que estamos progredindo, mas o caminho para uma integração efetiva ainda é longo. Existe uma tradição histórica de trabalho separado, tanto entre agências quanto entre países, e mudar essa abordagem exige tempo e esforço.
Em termos de interoperabilidade, os desafios técnicos são provavelmente os mais fáceis de resolver, uma vez que exista vontade política para tal. Portanto, o principal desafio continua sendo o fortalecimento da vontade política necessária para impulsionar uma integração mais profunda.
Contudo, a própria realidade econômica está impulsionando nossos países nessa direção. No caso do Brasil, mas também da Argentina e do Paraguai, os processos de desenvolvimento e internacionalização de suas economias estão gerando tanto as condições quanto a pressão para uma maior integração regional.
Tradicionalmente, grande parte da infraestrutura e da visão estratégica do Brasil tem sido voltada para o Atlântico. Hoje, essa visão começa a se ampliar. As realidades econômicas e comerciais exigem uma abordagem mais abrangente em relação ao território e às conexões logísticas, considerando novas rotas e oportunidades de conexão com outros mercados.
A isso se somam as mudanças no cenário geopolítico internacional. A Ásia consolidou sua posição como a região mais dinâmica da economia global, e uma melhor integração regional pode facilitar a conexão de nossos países com esses mercados. Quanto mais integradas forem nossas economias e redes logísticas, maiores serão as oportunidades de capitalizar esse dinamismo.
Da mesma forma, os desafios decorrentes das mudanças climáticas estão se tornando cada vez mais relevantes no planejamento logístico. Por exemplo, o Canal do Panamá enfrenta dificuldades periodicamente quando as secas reduzem os níveis de água e afetam suas operações. Essa realidade reforça a necessidade de desenvolver rotas alternativas e corredores logísticos complementares que proporcionem maior resiliência ao comércio internacional.
Nesse contexto, a integração física e logística da América do Sul deixa de ser mera aspiração estratégica e se torna uma necessidade cada vez mais evidente.
NOTÍCIAS ADUANEIRAS: Para concluir, que mensagem gostaria de deixar para a Argentina após este Seminário Internacional da OEA 2026?
JOHN MEIN: Minha mensagem é a seguinte: queremos que mais associações e entidades empresariais da Argentina se juntem à Procomex Regional, para que possamos analisar e abordar juntos os principais desafios que compartilhamos como região.
Conversa conduzida por María Elsa Coronel para Aduana News, No âmbito do XII Seminário Internacional da OEA 2026, realizado em São Paulo, Brasil.
Um agradecimento especial a Erika Medina Barrantes pela sua gentil colaboração na coordenação desta entrevista, e ao Sr. John Mein pela sua disponibilidade e generosidade em partilhar a sua experiência e conhecimento em benefício do comércio externo na nossa região.
As fotografias que acompanham esta entrevista foram gentilmente cedidas pela Procomex.
O Aduana News é o primeiro jornal aduaneiro argentino a lançar sua versão digital. Com 20 anos de experiência, suas publicações e iniciativas visam facilitar o conhecimento mais relevante sobre questões aduaneiras, a fim de contribuir para o comércio seguro na região.








