Em 21 de abril de 2026, o Brasil foi eleito Vice-Presidente Regional da Organização Mundial das Alfândegas (OMA) para as Américas e o Caribe, para o período de 2026 a 2028, durante a XXVIII Conferência Regional de Diretores de Alfândega, realizada em Lima, Peru. A região é composta por 34 Estados-Membros, representando aproximadamente 17% do total de países membros da OMA.
A OMA organiza seus membros em seis regiões, cada uma representada por uma Vice-Presidência Regional.
Nesse contexto, e considerando os desafios e prioridades que marcarão esta nova etapa, Fabiano Coelho (1), Subsecretário de Administração Aduaneira da Receita Federal do Brasil, gentilmente concordou em conversar com Aduana News (2).

1. Novo ciclo nas Américas
Notícias Aduaneiras: O Brasil assumirá a Vice-Presidência Regional da OMA para as Américas e o Caribe entre 2026 e 2028. O que essa nomeação representa para a Receita Federal e para o país?
Fabiano Coelho: A nomeação do Brasil como Vice-Presidente Regional da OMA representa uma grande responsabilidade e uma valiosa oportunidade para a Receita Federal do Brasil servir os 34 países da região. Aceitamos essa designação com compromisso, cientes da importância de trabalhar em colaboração com as administrações aduaneiras das Américas e do Caribe. Para o Brasil, isso fortalece sua posição internacional e amplia sua capacidade de dialogar sobre questões estratégicas de comércio exterior, em consonância com os interesses comuns das administrações aduaneiras.
AN: Com base nas experiências recentes na região, quais são, em sua opinião, as principais lições aprendidas em períodos anteriores e quais serão as prioridades estratégicas para o período de 2026-2028?
FC: Com base em experiências recentes na região, gostaria de destacar o excelente trabalho realizado pelo Serviço Aduaneiro do Peru (SUNAT) nos últimos quatro anos. Sua gestão estabeleceu uma base muito sólida, marcada por uma intensa agenda de intercâmbio de conhecimento entre as administrações aduaneiras das Américas e do Caribe.
Uma das principais lições é que a cooperação regional produz resultados concretos quando é construída de forma contínua, prática e participativa. O Peru liderou inúmeros seminários, muitos com ampla participação — em alguns casos, perto de mil pessoas — demonstrando o forte interesse da região em compartilhar experiências e fortalecer capacidades.
O Brasil pretende dar continuidade a essas iniciativas e consolidar as conquistas já alcançadas. Entre nossas prioridades, certamente estarão a promoção da capacitação e o fortalecimento da cooperação, inclusive para operações conjuntas.
2. Modernização aduaneira e facilitação do comércio
AN: O Brasil promoveu reformas estruturais como o DUIMP (Declaração Única de Importação) e a Janela Única para o Comércio Exterior. Com base na experiência brasileira, quais boas práticas você considera que poderiam ser compartilhadas com as Américas e o Caribe para acelerar a modernização aduaneira regional?
FC:Teremos prazer em compartilhar nossa experiência com a implementação do DUIMP e da Janela Única para o Comércio Exterior, bem como o uso intensivo de tecnologia para gestão de riscos, o Programa de Remessas em Conformidade, a reestruturação do Programa OEA brasileiro e outras iniciativas de interesse para a região.
AN: Nesse mesmo sentido, como pode a Vice-Presidência Regional contribuir para uma maior harmonização dos processos aduaneiros num cenário marcado pela necessidade de aprofundar a digitalização, promover a interoperabilidade e responder às novas exigências logísticas?
FC: A Vice-Presidência Regional pode atuar como catalisadora de iniciativas de harmonização, promovendo a disseminação de normas e instrumentos desenvolvidos pela Organização Mundial das Alfândegas, como o Quadro de Normas SAFE, a Convenção de Quioto Revisada e o Sistema Harmonizado.
Harmonização não significa uniformidade absoluta, pois cada país possui seu próprio arcabouço legal e particularidades institucionais. Em vez disso, implica progresso na implementação de instrumentos da OMA (Organização Mundial das Alfândegas) que facilitem o comércio, aumentem a previsibilidade para os operadores e permitam controles mais eficientes.
3. Segurança e o combate ao crime
AN: O Brasil possui uma trajetória consolidada no Programa de Operador Econômico Autorizado (OEA), recentemente fortalecido em seu marco regulatório e com mais de uma década de implementação, em consonância com os padrões internacionais. Qual será o papel dos programas OEA nesta nova etapa regional?
FC:Os programas de Operador Econômico Autorizado (OEA) continuarão sendo essenciais, pois permitem a identificação de operadores confiáveis e a concentração dos esforços de controle em operações de maior risco. Além disso, fortalecem a segurança da cadeia logística e promovem a facilitação do comércio.
No caso do Brasil, a recente reestruturação do Programa resultou na criação de diferentes níveis dentro da modalidade de Conformidade do Operador Econômico Autorizado (OEA), permitindo que os benefícios sejam concedidos proporcionalmente ao nível de conformidade de cada operador. Além disso, é importante ressaltar que o nível mais alto reflete a conformidade não apenas com os requisitos aduaneiros, mas também com as normas da administração tributária. Isso constitui um incentivo significativo para que os contribuintes alcancem padrões mais elevados de conformidade em ambas as áreas.
AN: No contexto do Acordo Mercosul-União Europeia, como o Brasil planeja promover a harmonização dos programas OEA (Operador Econômico Autorizado) para que as autoridades aduaneiras da região possam atender às exigências desse tipo de acordo global?
FC: Em geral, os programas de Operador Econômico Autorizado (OEA) estão interligados por meio de Acordos de Reconhecimento Mútuo (ARM). Para iniciar as negociações de um ARM, é necessário que haja interesse de dois ou mais países. Em seguida, normalmente é feita uma avaliação para determinar se as regras e os procedimentos de cada país são compatíveis com a Estrutura de Normas SAFE da OMA (Organização Mundial das Alfândegas).
Como Vice-Presidente da OMA (Organização Mundial das Alfândegas), o Brasil buscará fortalecer a implementação dos Acordos de Reconhecimento Mútuo (ARM) regionais existentes, com o objetivo de promover a concessão de benefícios concretos aos operadores certificados. Além disso, o Brasil incentivará o estabelecimento de novos ARM, seja com a União Europeia ou com outros parceiros estratégicos, contribuindo para maior integração, previsibilidade e segurança no comércio internacional.
AN: Paralelamente, diante do crescimento do crime organizado transnacional, qual será a importância dos Escritórios Regionais de Ligação de Inteligência (RILO)?
FCOs RILOs (Organizações Regionais de Intercâmbio de Informações) tornar-se-ão cada vez mais relevantes no combate ao crime organizado transnacional (como o tráfico de drogas e de armas), uma vez que permitem a troca de informações e reforçam a cooperação operacional entre as agências aduaneiras.
4. Gestão coordenada de fronteiras
AN: A administração cessante da SUNAT no Peru deixou um roteiro muito valioso por meio do Plano Estratégico Regional 2024-2026, que delineia metas cruciais de longo prazo, como a Gestão Coordenada de Fronteiras. Como o Brasil planeja aproveitar esses alicerces e qual contribuição gostaria de dar para promover ainda mais a integração operacional de nossos sistemas aduaneiros?
FCPretendemos consolidar os progressos alcançados, promovendo uma maior integração entre as passagens de fronteira. O nosso objetivo é avançar para uma gestão de fronteiras mais coordenada, eficiente e baseada na avaliação de riscos, com uma utilização cada vez mais intensiva da tecnologia.
No Brasil, por exemplo, temos um sistema chamado SIVANAEste sistema monitora veículos em áreas próximas a fronteiras terrestres usando imagens capturadas por câmeras de vigilância de tráfego. Ele permite que os agentes alfandegários analisem as rotas históricas de veículos de interesse e recebam informações em tempo real sobre sua localização, facilitando uma resposta mais rápida a potenciais ameaças, particularmente o tráfico de drogas e o comércio de produtos falsificados.
5. Inteligência Artificial e Análise de Dados
AN:A Receita Federal Francesa (Receita Federal) é líder regional no uso de IA e análise de dados para gestão de riscos. Quais mecanismos de cooperação ela prevê para compartilhar essas boas práticas e apoiar a modernização tecnológica de outras administrações aduaneiras nas Américas e no Caribe?
FCPrevejo mecanismos como programas de treinamento, cooperação técnica e troca de experiências para disseminar conhecimento e soluções no uso de inteligência artificial e análise de dados aplicadas à gestão de riscos. Nossa região possui uma experiência muito valiosa nessa área, desenvolvida por diversas administrações aduaneiras, que pode servir de referência e inspiração para fortalecer a modernização tecnológica das alfândegas nas Américas e no Caribe.
6. Desenvolvimento de capacidades regionais
AN: Considerando que o Brasil terá um Escritório Regional de Treinamento da OMA (Organização Mundial das Alfândegas), onde ele estará localizado e quais programas oferecerá?
FC: Com o Memorando de Entendimento assinado à margem da Conferência Regional de Diretores Gerais de Alfândega, em Lima, Peru, a Alfândega brasileira torna-se a sede do Escritório Regional de Capacitação para a região.
Seus principais objetivos incluem o planejamento de programas de treinamento, a troca de conhecimentos e o apoio ao desenvolvimento institucional, em conformidade com o Plano Estratégico da OMA.
As atividades de treinamento podem ser realizadas tanto em formato virtual quanto presencial. Para os cursos presenciais, espera-se que sejam utilizadas as instalações de diversas unidades operacionais no Brasil, bem como em outros países da região, em especial no Peru e na República Dominicana, que são Centros Regionais de Treinamento da OMA (Organização Mundial das Alfândegas).
7. Relação público-privada
AN: No contexto da recente Conferência em Lima, foi reafirmado o imenso valor do diálogo no âmbito do Fórum Conjunto entre a Alfândega e o Grupo Regional do Setor Privado (GRSP). Quais serão as prioridades estratégicas para consolidar ainda mais essa aliança, garantindo que o setor privado mantenha um papel ativo e construtivo na facilitação do comércio regional?
FCO setor privado desempenha um papel fundamental na identificação de entraves e na proposição de melhorias. Continuaremos a fortalecer o diálogo com os operadores, promovendo espaços de troca e cooperação. Consideramos essencial garantir a participação ativa, construtiva e contínua do setor privado na busca de soluções que contribuam para uma maior facilitação do comércio.
8. Governança e sustentabilidade institucional
AN: É de conhecimento público que as Vice-Presidências Regionais não possuem orçamento operacional alocado pela OMA (Organização Mundial das Alfândegas), cabendo todo o ônus financeiro e logístico à administração do país anfitrião. Diante desse desafio estrutural, quais estratégias o Brasil planeja para obter os recursos necessários para, entre outras ações, reativar e manter um site regional ativo, garantindo, assim, transparência, visibilidade da gestão e comunicação fluida entre todas as administrações aduaneiras das Américas e do Caribe?
FCO Brasil buscará estabelecer parcerias com organizações internacionais para garantir a sustentabilidade das iniciativas regionais. Em particular, será importante assegurar apoio financeiro para cobrir, entre outras coisas, as despesas de viagem e estadia dos funcionários da alfândega que participarem de atividades de capacitação presenciais.
9. Encerramento
AN: Que mensagem deseja transmitir às administrações aduaneiras da região ao iniciar este novo ciclo de liderança brasileira?
FCPrimeiramente, gostaria de expressar nossa gratidão às autoridades aduaneiras da região pela confiança depositada no Brasil ao assumir este novo papel como Vice-Presidência Regional. Em segundo lugar, gostaria de enfatizar que nosso objetivo será aprofundar a colaboração. Iniciamos este novo ciclo com a convicção de que os desafios atuais enfrentados pelas aduaneiras exigem respostas coordenadas e uma abordagem cada vez mais integrada.
Atuaremos como facilitadores do diálogo regional, promovendo iniciativas que gerem valor para todos e contribuam para o desenvolvimento de costumes mais resilientes, inovadores e conectados.
ANMuito obrigado, Sr. Subsecretário da Administração Aduaneira da Receita Federal do Brasil, por conversar conosco. Aduana News.
(1) Fabiano Coelho assumiu o cargo de Subsecretário da Administração Aduaneira da Receita Federal do Brasil em dezembro de 2024, tornando-se a mais alta autoridade da Alfândega brasileira. Ele é especialista credenciado pela Organização Mundial das Alfândegas (OMA) em Estudo de liberação de tempo e liderou o primeiro estudo sobre tempos de desembaraço aduaneiro de importações realizado no Brasil.
(2) Esta entrevista foi conduzida por María Elsa Coronel para a Aduana News.
O Aduana News é o primeiro jornal aduaneiro argentino a lançar sua versão digital. Com 20 anos de experiência, suas publicações e iniciativas visam facilitar o conhecimento mais relevante sobre questões aduaneiras, a fim de contribuir para o comércio seguro na região.