InícioComércioOs costumes do futuro: inteligência artificial, blockchain e o desafio argentino

Os costumes do futuro: inteligência artificial, blockchain e o desafio argentino

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O mundo que conhecíamos no século XX, regido pelo comércio de bens tangíveis, deu lugar a uma nova era. Como expliquei em minhas publicações, Revolução Industrial e Globalização 4.0 está redefinindo o valor econômico. Hoje, o ativo mais valioso não é o produto físico, mas o intangível que a acompanha: software, dados, design e serviços profissionais. Essa transição, alavancada por tecnologias como Inteligência Artificial (IA), o Big Data, o Internet das coisas (IoT), a Realidade Virtual (RV), a Digitalização e pela cibersegurança, exige uma transformação de todos os elos da cadeia logística. E, fundamentalmente, força a alfândega a evoluir, mesmo com tecnologias de código aberto como Blockchain.

Alfândega, um espelho da evolução econômica

Historicamente, a alfândega foi projetada para a Globalização 2.0, focada no controle de grandes volumes de mercadorias físicas. No entanto, na era da "economia do clique", em que um serviço é exportado em segundos e o software atravessa fronteiras sem um contêiner, a alfândega tradicional está se tornando obsoleta.

É aqui que o futuro da alfândega surge como um elo crucial. Não se trata mais apenas de controlar uma caixa registradora, mas de gerenciar o fluxo de informações, minimizar riscos e acelerar processos em um ambiente hiperconectado.

Da inspeção à análise preditiva: o poder do Big Data e da IA

Países como a China estão na vanguarda desta transformação. O seu investimento em mais de 260 portas automatizadas e a integração de Inteligência artificial em seu sistema aduaneiro é um exemplo do caminho a seguir. A chave não é revisar mais, mas analisar melhor.

  • Big Data para criação de perfis de risco: A alfândega digital não precisa inspecionar 100% da carga. Em vez disso, ela usa big data para analisar milhões de transações, identificando padrões, anomalias e comportamentos fraudulentos com precisão sem precedentes. Isso permite análise preditiva de risco, concentrando recursos humanos e tecnológicos em embarques de maior risco, assim como CBP dos Estados Unidos.
  • IA para eficiência operacional: A IA pode automatizar a classificação tarifária de produtos, comparar documentos instantaneamente e facilitar o desembaraço aduaneiro. O caso de Cingapura e seu sistema Rede de comércio É um exemplo de como uma plataforma integrada, com análise avançada de dados, minimiza os tempos de processamento e elimina gargalos burocráticos.
  • Blockchain para transparência e rastreabilidade: A tecnologia Blockchain oferece uma solução para a necessidade de confiança na cadeia de suprimentos. Ao criar um registro imutável e descentralizado de cada transação, da origem ao destino, a autenticidade e a rastreabilidade do produto são garantidas. A alfândega pode verificar as informações da remessa em tempo real, reduzindo a burocracia e a possibilidade de fraude.
  • Digitalização e Realidade Virtual: Digitalizar documentos por meio de plataformas únicas é o primeiro passo. Realidade Virtual (RV), por sua vez, poderá ser usado no futuro para inspeção remota de contêineres ou para treinamento de agentes aduaneiros em ambientes simulados de alto risco, melhorando a segurança e a eficiência.

O papel da China e o desafio para os BRICS

A iniciativa da China de colaborar com a OMA e estender seu modelo a outros países do BRICS não é coincidência. Representa uma visão estratégica para padronizar e digitalizar o comércio global, o que, por sua vez, consolida sua posição como potência econômica. Para os países da região, o desafio não é copiar o modelo, mas adaptá-lo e aproveitar as oportunidades que ele oferece. (É importante mencionar que, embora a Argentina tenha sido convidada a ingressar no bloco, o atual governo rejeitou a iniciativa, de modo que o país não faz parte deste grupo de cooperação.)

Alfândega 4.0 na América Latina e Argentina

  A América Latina avança, ainda que em ritmo heterogêneo, na adoção dessas tecnologias. Países como Chile, com o seu “Operador Económico Autorizado” digital, e México, com o uso de sistemas de análise de risco, estão dando passos importantes.

En Argentina, a modernização aduaneira é um processo contínuo. A implementação da SIM (Sistema Integrado das Malvinas) e, mais recentemente, a digitalização de vários procedimentos, são passos fundamentais. No entanto, o desafio atual é integrar essas tecnologias para passar da simples digitalização para automação e análise preditivaEsforços de colaboração entre os setores público e privado, juntamente com investimentos em capital humano, serão cruciais para aproveitar o potencial da IA, Big Data e Blockchain, posicionando assim o país para as Alfândegas do futuro.

Conclusão: A Alfândega 4.0 como Motor de Competitividade

A quarta revolução industrial chegou às fronteiras, e a alfândega é seu novo campo de atuação. A transformação digital não é um luxo, mas um imperativo para que as economias permaneçam competitivas. Ao adotar IA, Big Data, Blockchain e digitalização, a alfândega não só se tornará mais eficiente em sua função de fiscalização, como também se tornará uma verdadeiro motor da competitividade de negócios, facilitando o fluxo do comércio global de bens tangíveis e, acima de tudo, os valiosos intangíveis que definem nossa era.

A Alfândega do futuro não se mede em metros cúbicos, mas em algoritmos, interoperabilidade e talento institucional.

A Alfândega 4.0 não será apenas tecnológica: na Argentina, será também política, pedagógica e estratégica.Requer visão, determinação e coordenação real entre o estado, as empresas e a academia.

Nosso país enfrenta um duplo desafio: modernizar seus sistemas sem perder a soberania operacional e formar profissionais capazes de se envolver com tecnologias emergentes sem perder a discricionariedade regulatória. 

A digitalização parcial do SIM, os avanços na auditoria eletrônica e as tentativas de coordenação com a ARCA, SENASA e outros órgãos demonstram disposição, mas ainda falta uma visão sistêmica.

Transformar os costumes significa transformar o comércio. E transformar o comércio significa transformar o país.

O autor é formado em Administração e mestre em Relações Internacionais (UNCBA), com destacada trajetória como funcionário da Agência de Regulação e Controle Aduaneiro (ARCA) por 39 anos. Ex-bolsista da OEA e do governo espanhol, ele foi professor universitário de graduação e pós-graduação em várias universidades argentinas por 33 anos e membro da Soft Landing World Network.

Especialista em Comércio Exterior e consultor independente, é autor dos livros: “Operações Aduaneiras de A a Z”, bem como"Intangíveis: como exportar serviços e não morrer tentando"Ocupou cargos importantes, como Diretor-Geral Adjunto de Operações Aduaneiras Metropolitanas, Diretor Regional da Hidrovia e Administrador da Alfândega de Córdoba e Rosário. Foi Primeiro Conselheiro Geral da Direção-Geral da Alfândega – Aduana Córdoba e atualmente atua como consultor em comércio exterior.