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Como as empresas latino-americanas podem fortalecer sua resiliência ao risco geopolítico, segundo especialistas

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As empresas latino-americanas precisam fortalecer sua resiliência diversificando mercados e cadeias de suprimentos, utilizando inteligência de negócios e garantindo a conformidade regulatória. Tudo isso acontece em um contexto de incerteza global, onde a geopolítica está mais uma vez no centro das decisões de negócios e investimentos. Somente assim poderão reduzir vulnerabilidades e alavancar o papel estratégico da região na transição energética e alimentar global, concordaram especialistas durante um debate virtual organizado na terça-feira pela Introspecção LAC e apresentado por Ana Basco.

As condições geopolíticas sempre influenciaram os negócios, mas, desde o fim da Guerra Fria, elas foram relegadas a segundo plano em relação às preocupações macroeconômicas, estratégicas e operacionais. Hoje, essa tendência mudou.

Por Esteban Actis, Doutor em Relações Internacionais pela Argentina, “tanto o risco político quanto a estabilidade comercial tornaram-se fatores determinantes para o crescimento, superando até mesmo outros riscos tradicionais”. Citando Charles Keys, CEO de um fundo americano em Davos: “A geopolítica, que antes estava à margem da globalização, agora está no centro das decisões de investimento”. A Actis alerta que a “militarização” da economia – tarifas, sanções e controles de exportação – impacta as cadeias de suprimentos e os mercados estratégicos, forçando as empresas a se adaptarem e diversificarem. Setores como tecnologia, produtos farmacêuticos, minerais críticos e eletromobilidade são os mais afetados, e “a afinidade geopolítica influencia a localização dos investimentos mais do que o próprio comércio”. Em sua conclusão, enfatiza que “seguir tendências geopolíticas não é uma opção: é uma necessidade estratégica”.

O especialista Nicolás Albertoni, ex-vice-chanceler do Uruguai (2022-2025) e doutor em Ciência Política e Relações Internacionais, expandiu sua análise da perspectiva macro para a importância da América Latina no contexto internacional. Segundo Albertoni, os cientistas políticos Collier e Collier identificam três fatores-chave do nosso tempo: "incerteza, interdependência e complexidade". Um exemplo é o preço do petróleo, que reflete como os eventos geopolíticos impactam a economia global, amplificados pela integração comercial. A entrada da China na OMC em 2001 intensificou essa interdependência, com quase 600 acordos comerciais registrados atualmente, embora apenas 10% correspondam a integrações profundas, destacando a necessidade de fortalecer mecanismos regionais como o MERCOSUL.

Outro exemplo de complexidade são as cadeias globais de valor. Albertoni citou Pietra Rivoli, professora americana de finanças e negócios internacionais na Universidade de Georgetown: "Antes de chegar ao consumidor, uma simples camiseta branca passa por 5 a 13 países", refletindo eficiência de custos, mas também vulnerabilidade a crises, tornando iniciativas como o nearshoring estratégicas.

Em relação à América Latina, Albertoni enfatizou que a região mantém relevância global apesar dos desafios internos: é "uma das poucas regiões em paz", com importância estratégica em energias renováveis, biodiversidade e produção de alimentos, mas continua sendo "uma das regiões menos integradas comercialmente", com mais de 50% das exportações do MERCOSUL entrando sem preferências tarifárias. Diante da dicotomia China-EUA, a região enfrenta decisões estratégicas: os EUA priorizam acordos e marcos legais tradicionais, enquanto a China se concentra em cooperação pragmática e infraestrutura, oferecendo oportunidades, mas também riscos de dependência. Albertoni conclui que "a América Latina pode se posicionar como um terceiro ator, aproveitando acordos plurilaterais na economia digital, comércio e setores estratégicos, fortalecendo sua autonomia e relevância global".

Renata Zilli, especialista mexicana em economia política internacional, concordou com Esteban e Nicolás que “estamos perante uma mudança de era”. “Não estamos simplesmente a ajustar as regras do jogo comercial: estamos perante um novo jogo, e estamos a falar de factos, não de ficções”, sublinhando que “a incerteza comercial é real e crescente”. Embora os índices de Incerteza da política comercial mostram um aumento constante, “o comércio internacional permanece acima da tendência” graças ao esquema da Nação Mais Favorecida.

No México, onde 80% do comércio, principalmente manufatura, vai para os Estados Unidos, isso cria riscos, mas também "oportunidades de negociação". Em relação ao USMCA, Zilli enfatizou que ele inclui regras de origem mais rígidas, cláusulas geopolíticas e mecanismos de resolução de disputas. Em suas palavras, "o México funciona como um laboratório para entender o cenário comercial do futuro", equilibrando vantagens competitivas em relação à China com riscos e assimetrias regionais. Ele também antecipou que a revisão do Tratado, prevista para 2026, será fundamental para definir os próximos passos nas políticas comercial, trabalhista e energética.

Como resumo final, Ana Basco, o diretor de Introspecção LAC, observou: “Estamos em uma nova normalidade geopolítica. A América Latina tem um papel estratégico e deve continuar explorando oportunidades, tanto no setor público quanto no privado, para fortalecer sua resiliência e diversificação comercial.” O esforço vale a pena: as empresas da região que pensarem no futuro e responderem à incerteza atual na ordem global em transformação serão as líderes de mercado de amanhã.

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