Este relatório deve ser o que mais nos desafia, especialmente na América Latina. Porque nenhum debate sobre investimento, competitividade ou estabilidade econômica será viável a menos que seja enquadrado em uma realidade urgente: a infiltração do crime organizado no comércio legítimo. Sem uma resposta coordenada e colaborativa, o desenvolvimento sustentável não é possível, nem a integridade logística pode perdurar.
Com um firme apelo à colaboração conjunta, a Organização Mundial das Alfândegas (OMA) apresentou seu relatório em 17 de julho relatório intitulado “Infiltração nas cadeias de abastecimento de carga marítima: crime organizado, cocaína e o conspirador interno”Segundo a própria OMA, "a análise não abrange integralmente os fluxos marítimos globais de drogas, mas fornece uma avaliação precisa das tendências recentes e prováveis do contrabando marítimo". O estudo revela como organizações criminosas aprimoraram suas táticas nas cadeias logísticas marítimas, alavancando recursos, acesso interno e tecnologia para impulsionar o tráfico ilícito de drogas globalmente.
Entre 2023 e 2024, foram analisados 2.626 apreensões de drogas em todo o mundo, com um volume total de 1.347 toneladas — principalmente cocaína. O dado mais revelador: 68% dos casos envolveram "conspiradores internos"., ou seja, funcionários da cadeia logística que colaboraram voluntariamente ou sob pressão com redes criminosas.
América Latina: origem
O relatório observa que a América Latina não é apenas uma importante região produtora, mas também uma porta de entrada estratégica para rotas comerciais com a Europa e outras regiões. Grupos criminosos utilizam contêineres marítimos - o meio mais utilizado, com 85% das apreensões- e métodos cada vez mais sofisticados: modificação de estruturas, abertura em trânsito, acoplamento de cargas aos cascos de embarcações ou entregas em alto mar.
Uma tendência emergente é o uso de tetos de contêineres para esconder drogas, com um salto de 0,9 a 3,4 toneladas apreendidas em apenas um ano, o que mostra uma rápida evolução tática por parte das organizações.
◾O caso da indústria da banana
O capítulo IV do relatório detalha como a indústria da banana, devido ao seu volume e regularidade no comércio marítimo, se tornou alvo sistemático do tráfico de drogas. Do total de detecções em contentores com mercadorias identificadas, 35% tinham bananas como produto declaradoA escala desse comércio e sua carga orgânica dificultam sua detecção e facilitam sua ocultação.
Além disso, a OMA alerta para o desvio intencional de contêineres antes de sua chegada ao porto de carga original, o que permite a manipulação secreta da carga. Essa vulnerabilidade também expõe os embarcadores, como evidenciado pelo depoimento coletado pela BBC de um motorista de caminhão equatoriano que declarou: “Se você não contaminar os recipientes, terá duas opções: pedir demissão ou acabar morto."
◾Contrabando marítimo
O relatório também documenta uma modalidade perigosa no Capítulo V: a fixação de drogas nos cascos subaquáticos de embarcações comerciais, realizadas por equipes de mergulhadores especializados, recrutadas e supervisionadas por organizações criminosas em portos latino-americanos. Entre 2023 e 2024, foram registrados 76 casos dessa técnica, com um total de 12,2 toneladas de cocaína interceptadas.Brasil, Colômbia e Costa Rica foram os principais países de origem, sendo o porto de Santos o mais afetado.
Mais da metade desses navios contaminados tinham como destino portos da Europa Ocidental, principalmente Espanha e Itália.
Uma resposta que não pode esperar
A OMA, por meio do Projeto de Integridade da Cadeia de Suprimentos, coordenado com a Força de Fronteira Australiana (ABF), fortaleceu seu monitoramento dessas ameaças e o desenvolvimento de ferramentas analíticas para dar suporte aos seus Estados-Membros.
El Secretário-Geral da OMA, Ian Saunders, foi direto: “LAtores ilegítimos estão minando nossos esforços coletivos com a indústria para promover um comércio seguro e livre. As quantidades de narcóticos detectadas demonstram que eles são bem organizados, bem financiados e persistentes. Precisamos de respostas igualmente focadas e decisivas..
A OMA enfatiza a necessidade urgente de maior coordenação entre as jurisdições e o setor privado para combater eficazmente o comércio ilícito.
"Este esforço colaborativo é vital para eliminar os canais que permitem a exploração do comércio transfronteiriço legítimo.", enfatiza a OMA.
Para tanto, o relatório da OMA — disponível em seu site oficial em espanhol e composto por 48 páginas divididas em seis capítulos — está aberto à consulta pública. Não se trata apenas de mais um relatório, mas de uma ferramenta para que os governos e seus representantes o analisem minuciosamente, e para que o setor privado compreenda seu escopo, suas implicações e as ações necessárias que devem ser tomadas a partir de agora.
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