A América Latina é um continente comercial, onde as áreas portuárias metropolitanas desempenham um papel central no comércio regional. Entre os mais importantes estão o Rio da Prata (Argentina e Uruguai), os portos do Brasil, a Zona do Canal do Panamá e Callao, no Peru. Nesse contexto, a modernização portuária e a logística digital estão se tornando prioridades estratégicas. Especialistas se reuniram nesta sexta-feira (3 de outubro de 2025) no seminário “Modernização portuária na América Latina” da ALADI, concordaram que a infraestrutura, a digitalização e a cooperação público-privada são essenciais para fortalecer os portos e otimizar as cadeias logísticas, impulsionar o transporte multimodal e promover a sustentabilidade ambiental, em conformidade com a Resolução 85 da ALADI de 18 de agosto de 2023.
Durante a abertura, Rafael Laurentino, chefe do Departamento de Integração Física e Digital da ALADI, Ele enfatizou que a logística é um fator-chave para o desenvolvimento econômico e social da região, conectando mercados, reduzindo custos de transação e aumentando a produtividade. "A infraestrutura — portos, rodovias, ferrovias e centros de distribuição — é essencial para garantir a conectividade necessária para a movimentação de mercadorias", observou. Ele também observou que o crescimento do comércio e a globalização ampliaram o papel estratégico dos portos, que hoje enfrentam múltiplos desafios e exigem processos mais eficientes e tecnológicos.
O representante da ALADI enfatizou a importância da implementação de planos estratégicos e do fortalecimento da cooperação regional, promovendo boas práticas logísticas e projetos de infraestrutura. "O objetivo é consolidar a logística em toda a região, compartilhar experiências e facilitar o comércio exterior por meio da modernização de portos, hidrovias e corredores bioceânicos", concluiu na abertura da reunião.
Operações integradas
Nessa linha, a dissertação teve início "Políticas de logística portuária no contexto da dinâmica da cadeia de suprimentos na América Latina", encarregado de Juan Opertti, Gerente de Logística para América do Sul na Katoen Natie, que enfatizou que os portos da região "foram chamados a ser nós elegíveis diante da nova realidade das cadeias de suprimentos". Da perspectiva do setor privado, ele observou que o desafio atual vai além da infraestrutura e está na capacidade de articular "portos eficientes vinculados a áreas não portuárias e cadeias de suprimentos resilientes".
Opertti enfatizou que as disrupções globais, sejam elas relacionadas à saúde, ao clima ou à geopolítica, "estão aqui para ficar" e que a América Latina precisa caminhar em direção a um modelo de complexidade controlada que permita que a incerteza se transforme em oportunidade. "A complexidade controlada é uma área de oportunidade", citou, ecoando um conceito do MIT.
O especialista — com vasta experiência em portos — também destacou a importância de uma visão integrada entre os setores público e privado, onde os portos deixem de ser "nós isolados" e se tornem plataformas logísticas conectadas a zonas francas, parques industriais e corredores multimodais. "Hoje, os portos não são nós." stand-alone, são nós que estão vinculados ao lado terrestre", integrando logística, tecnologia e sustentabilidade", explicou. Nesse contexto, destacou o potencial da América Latina para se posicionar como um hub logístico inteligente, capaz de alavancar sua localização estratégica, conectividade natural e a hidrovia Paraguai-Paraná. "A paz é um ativo intangível e estratégico para que os investimentos cheguem e se estabeleçam", enfatizou.
Opertti também abordou o impacto do comércio eletrônico transfronteiriço e da inteligência artificial na configuração das cadeias de suprimentos, bem como a necessidade de reduzir estoques, encurtar os ciclos logísticos e projetar hubs portuários que atuem como centros de distribuição regionais. Nesse contexto, enfatizou a necessidade de adotar políticas estatais que fortaleçam regimes especiais, como as zonas de livre comércio – mais de 400 das quais operam na América Latina –, promovendo seu desenvolvimento de forma complementar e intermodal, e aprimorando a digitalização e a visibilidade de ponta a ponta.

Por fim, ele enfatizou que o desenvolvimento de talentos, a capacitação em logística, a análise de dados, o comércio exterior e a sustentabilidade devem ser pilares centrais. Concluiu que a América Latina pode se posicionar não apenas como um polo de infraestrutura, mas também como um polo de serviços logísticos inteligentes e sustentáveis, tornando a sustentabilidade uma verdadeira vantagem competitiva.
Transformação real
Em linha com a visão apresentada por Juan Opertti sobre portos inteligentes e conectadosMariela Gutarra —Líder em Governo e Transformação Digital e Chefe do Escritório de Tecnologia da Informação da Autoridade Portuária Nacional do Peru (APN)— abordou a questão “Políticas efetivas de estímulo ao desenvolvimento portuário: digitalização no sistema portuário nacional”Ele destacou a transformação digital como um motor de competitividade e coesão regional e ressaltou a importância de implementar políticas que integrem os setores público, privado e acadêmico, bem como a comunidade logística, no processo de modernização portuária.
“Como Juan mencionou, a transformação digital dos portos não é mais algo do futuro: é uma realidade e uma necessidade atual”, afirmou. A pandemia acelerou esse processo, forçando os países a se adaptarem para sustentar as operações portuárias e logísticas. O desafio hoje é consolidar uma cultura digital contínua que conecte todos os stakeholders do ecossistema portuário.
Gutarra também destacou o papel do capital humano como complemento ao capital tecnológico e financeiro: "Combinar talento, inovação e recursos gera verdadeiro valor agregado nas cadeias de suprimentos". Ele analisou os avanços regulatórios do Peru, incluindo um marco legal para a transformação digital desde 2018, a Lei de Inteligência Artificial e a Política Nacional de Transformação Digital para 2030, observando que o desafio agora é aplicar esses padrões na prática nos portos por meio de políticas sustentáveis e projetos concretos.

Entre as iniciativas reais e emblemáticas, ele mencionou o projeto Callao Smart Port, implementado desde 2020, que visa consolidar um modelo portuário hiperconectado, eficiente e sustentável, juntamente com o uso de tecnologias emergentes — IA, IoT, gêmeos digitais, blockchain e big data — para melhorar a visibilidade e a interoperabilidade dos sistemas portuários. "Nos inspiramos em líderes internacionais como o Porto de Antuérpia para avançar em direção a portos inteligentes", explicou.
Ele reiterou a importância da gestão do conhecimento e das capacidades digitais, com foco nas pessoas: “A transformação digital não começa com a tecnologia, mas com a estratégia e as pessoas. Precisamos de líderes digitais e organizações ágeis, horizontais e colaborativas.”
Em relação à segurança, ele destacou a necessidade de fortalecer a resiliência cibernética contra os riscos inerentes à digitalização e mencionou a colaboração com a Associação Internacional de Portos e Marinas (IAPH) para desenvolver diretrizes sobre tecnologias emergentes, da computação quântica à automação portuária.
Por fim, apresentou o Plano Nacional de Desenvolvimento Portuário para 2030, que promove portos mais inteligentes, sustentáveis e interoperáveis, com janelas únicas marítimas e plataformas interoperáveis (Sistemas Comunitários Portuários), além de projetos-piloto em portos como Chancay, que incorporam tecnologia 5G, veículos autônomos e guindastes automatizados. "Estamos construindo portos mais sustentáveis, inclusivos e proativos, capazes de responder a um comércio global mais dinâmico e complexo", concluiu, destacando a adaptação das melhores práticas internacionais ao contexto latino-americano.
Costumes estratégicos
Nesse contexto, as alfândegas foram destacadas como pilares fundamentais da modernização portuária e da facilitação do comércio. A representante do Peru enfatizou que sua agência aduaneira “É um dos players mais importantes e líderes na transformação digital.”
“A Alfândega Peruana vem progredindo significativamente ao longo dos anos e hoje serve de exemplo para outras instituições portuárias”, observou. “Ela implementou inteligência artificial e promoveu processos internos de transformação cultural, consolidando sua posição como referência regional.”
A autoridade também lembrou a recente celebração do Dia da Alfândega no Peru, onde foi realizado um debate sobre os avanços alcançados e os projetos de inovação tecnológica em andamento. Essas intervenções refletem como a região atravessa uma fase crucial de logística e transformação digital, na qual alfândega, portos e setor privado estão convergindo para a mesma agenda: um comércio exterior mais ágil, transparente e competitivo.
Do ponto de vista do setor privado, Juan Opertti enfatizou que a alfândega desempenha um papel essencial não apenas na supervisão, mas também na facilitação do comércio internacional. "Elas precisam inspecionar, porque faz parte de sua competência, mas também devem aproveitar as tecnologias emergentes para reduzir a burocracia, simplificar procedimentos e agilizar as operações", observou.
Opertti enfatizou que a digitalização permite a descentralização de funções e melhora a rastreabilidade da carga, mesmo fora das áreas portuárias tradicionais. Ele ressaltou a importância dos controles extraportuários e dos corredores logísticos inteligentes, onde as agências alfandegárias, de saúde e de segurança podem atuar de forma coordenada.
Por fim, ele enfatizou que a colaboração público-privada é fundamental para alcançar processos mais eficientes: "O setor privado pode contribuir com tecnologia e capacidade operacional, mas a decisão final deve sempre caber ao agente aduaneiro. A alfândega tem a palavra final, pois é a autoridade sobre a mercadoria. Um país sem uma Alfândega que funcione bem perde credibilidade e enfraquece institucionalmente..
encerramento
O seminário, que reuniu 147 participantes, demonstrou como portos, alfândegas e setor privado estão avançando juntos na transformação digital, no transporte multimodal e na modernização da infraestrutura portuária. Essas iniciativas, promovidas pela ALADI, reforçam a integração regional e a sustentabilidade ambiental. Nas palavras de Embaixador Didier Olmedo, Representante Permanente do Paraguai na ALADI e no MERCOSUL: »Tudo o que fazemos tem um foco central: facilitação do comércio, o que nos permite ser mais competitivos e aproveitar ao máximo as oportunidades do comércio internacional.”
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